O ex-ministro Alceni Guerra revisita sua própria história não para celebrar o passado de sua trajetória pública, mas para cobrar do presente escolhas políticas à altura dos desafios do Paraná e do Brasil. No texto que abre este artigo especial para o Blog do Esmael, ele parte da experiência de quem atravessou a Constituinte, chefiou ministérios e enfrentou crises para sustentar uma tese simples e incômoda: desenvolvimento real não se mede só por números, mas pela capacidade de transformar políticas públicas em dignidade concreta. É um depoimento de quem viveu decisões duras e agora usa a memória como instrumento de responsabilidade, mirando menos no que foi e mais no que ainda precisa ser construído.
Ao leitor, Alceni entrega mais do que recordações. Entrega um convite à reflexão sobre educação, saúde, inovação e desigualdade como pilares de um futuro possível. O que está em jogo, segundo ele, não é a nostalgia de conquistas passadas, mas a coragem de renovar compromissos em um país que insiste em adiar reformas estruturais. Seu relato pessoal funciona como fio condutor de um debate maior sobre política pública, instituições e projeto nacional.
Revisitei minha trajetória para pensar o futuro
Por Alceni Guerra*
Ao revisitar a minha trajetória, não o faço movido pela nostalgia, mas pela responsabilidade de pensar o futuro. Olhar para a própria vida pública é, antes de tudo, um exercício de reflexão sobre o que permanece, o que precisa ser corrigido e o que ainda precisa ser construído.
Ao rever os caminhos que percorri, penso sobretudo no futuro do Paraná e do Brasil — não como abstrações, mas como projetos coletivos que dependem de escolhas políticas concretas, feitas com coragem, senso público e compromisso social.
Vivi intensamente momentos decisivos da história institucional brasileira. Participei da construção da Constituição, da formulação de políticas públicas estruturantes e de debates que moldaram direitos que hoje parecem naturais, mas que, à época, exigiram enfrentamento, persistência e convicção.
Essa experiência me ensinou que o desenvolvimento de um país não se sustenta apenas no crescimento econômico, mas na capacidade de transformar políticas públicas em instrumentos reais de dignidade, inclusão e oportunidade.
É a partir desse lugar — de quem viveu o passado, mas se recusa a olhar apenas para trás — que reflito sobre os desafios que se colocam diante do Paraná e do Brasil.
Educação, saúde pública, inovação tecnológica, redução das desigualdades e fortalecimento das instituições continuam sendo as chaves para um futuro sustentável.
O que está em jogo não é apenas a memória de conquistas anteriores, mas a disposição permanente de renovar compromissos e atualizar soluções diante de um mundo em transformação.
O texto que segue não é um balanço definitivo nem uma autobiografia formal. É um relato pessoal, escrito com a consciência de que o futuro se constrói a partir das experiências acumuladas, mas exige, sempre, novas respostas.
Ao revisitar minha história, procuro contribuir para esse debate, compartilhando escolhas, acertos, erros e aprendizados, na esperança de que possam servir como ponto de partida para reflexões mais amplas sobre o caminho que o Paraná e o Brasil ainda precisam percorrer.
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Sou médico pediatra, formado pela Universidade Federal do Paraná, e minha vida pública começou muito cedo, em um momento decisivo da história do Brasil.
Olhando hoje para trás, vejo que minha trajetória foi marcada menos por cargos e mais por escolhas — algumas fáceis, muitas difíceis, quase todas com consequências.
Entrei na vida política em 1981, quando me elegi pela primeira vez deputado federal com votos da minha querida região do Sudoeste do Paraná.
Em 1986 fui eleito para compor a Assembleia Nacional Constituinte.
Foi ali que vivi um dos momentos mais marcantes da minha vida pública: o discurso em defesa da emenda da licença-paternidade.
A proposta, no início, foi recebida com ironias e chacotas. Ainda assim, falei como médico, como pai e como cidadão, da importância da presença do pai nos primeiros dias de vida de um filho.
O discurso ganhou outra dimensão e acabou sendo aprovado por unanimidade, garantindo, inicialmente, cinco dias de licença-paternidade.
Muito tempo depois, em um encontro institucional, Dona Marisa Letícia — já falecida — me confidenciou que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe havia dito que aquele discurso foi um dos momentos em que mais se emocionou em toda a sua trajetória pública.
Aquilo me marcou profundamente, não pelo reconhecimento pessoal, mas pela confirmação de que uma fala sincera pode atravessar o tempo.
Em 1990, assumi o Ministério da Saúde em um período extremamente delicado. Foram meses intensos, de decisões estruturantes.
Avançamos na consolidação do SUS – Sistema Único de Saúde, fortalecemos as campanhas nacionais de multivacinação, implantamos o tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV/AIDS e estruturamos o trabalho dos agentes comunitários de saúde.
Nada disso foi simples. Houve resistência, disputas políticas e pressões de toda ordem.
Com o distanciamento do tempo, esse período à frente do Ministério da Saúde ganha, para mim, uma dimensão ainda mais clara.
Quando observo em conjunto as quatro iniciativas estruturadas naquele momento, percebo que elas formam um corpo coerente de políticas públicas que redefiniu de maneira permanente a saúde pública brasileira.
São programas que atravessaram governos, orientações ideológicas e sucessivas crises institucionais, mantendo-se como pilares do Estado brasileiro.
Por isso, entendo que a relevância dessas conquistas não se medem apenas pelo contexto político em que ocorreu, mas pelo fato de que aquelas decisões continuam operando, décadas depois, como base concreta do sistema de saúde do país e como parte indissociável da construção da saúde pública contemporânea no Brasil.
Paralelamente, assumi o Ministério da Criança com a convicção de que o Brasil precisava investir seriamente em educação em tempo integral.
Decidi então implementar em escala nacional, a educação em tempo integral por meio da construção de cinco mil CAICs — Centros de Atenção Integral à Criança.
O projeto dos CAICs nasceu da ideia de centros pensados para integrar educação, saúde, cultura e alimentação.
Essa proposta me aproximou de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, com quem construí uma relação política e pessoal profunda.
Essa aproximação nasceu da convicção comum de que a educação integral era instrumento central de transformação social.
No caso do Brizola, tornamo-nos amigos até o fim de sua vida.
Essa escolha teve custos, já que Brizola mantinha um histórico confronto com o principal dirigente da mídia nacional.
O enfrentamento com interesses econômicos, a recusa em aceitar distorções e o conflito com setores da mídia criaram um ambiente deliberadamente hostil.
Somaram-se a isso pressões empresariais, especialmente de empreiteiras que contestavam os limites de custo impostos às obras, além do agravamento da crise política do governo Collor.
Em meio à crise política do governo, passei, em pouco tempo, de referência pública a alvo preferencial de acusações reiteradas, amplamente divulgadas antes de qualquer apuração conclusiva.
A exposição midiática, conduzida sem o cuidado mínimo com a verificação dos fatos, produziu efeitos imediatos e duradouros sobre minha vida pública e pessoal.
Fui acusado, investigado e, ao final, absolvido por todas as instâncias em que fui julgado, sem que qualquer irregularidade fosse comprovada.
Esse episódio permanece, para mim, como um exemplo claro de como a atuação de parte da imprensa, quando se antecipa aos fatos e substitui o devido processo por julgamento público, pode destruir reputações — mesmo quando a verdade, mais tarde, se impõe.
Voltei à política em 1996, retornando à minha cidade, à minha base.
Fui eleito prefeito de Pato Branco com 76% dos votos válidos, a maior vitória proporcional do país naquela eleição.
Aquilo representou o respeito e a confiança das pessoas mais próximas pela minha trajetória.
Logo no início da gestão, implantei a educação integral como política prioritária.
Essa decisão não foi circunstancial, mas parte de uma estratégia construída ao longo do tempo.
Ainda em 1987, como deputado federal, viabilizei a instalação do CEFET em Pato Branco, dando início a um processo consistente de reorientação educacional e econômica da cidade.
Com o passar dos anos, esse caminho se consolidou: Pato Branco transformou-se em um polo tecnológico e educacional, reconhecido em âmbito estadual e nacional pelo desenvolvimento da cidade.
Após dois anos de uma gestão bem avaliada como prefeito, fui convidado a deixar o cargo para assumir a Chefia da Casa Civil do Paraná.
O convite partiu do então vice-presidente da República, Marco Maciel, do governador Jaime Lerner e do presidente nacional do meu partido à época, Jorge Bornhausen.
O governo estadual enfrentava dificuldades de articulação política e administrativa, e entenderam que eu poderia contribuir para reorganizar a condução institucional naquele momento.
À frente da Casa Civil, participei ativamente do processo de estabilização política e do encaminhamento do mandato de Jaime Lerner, em um período que exigiu diálogo, equilíbrio e capacidade de mediação.
Em 2006, voltei à Câmara dos Deputados para meu terceiro mandato.
O ambiente já não era o mesmo da Constituinte. As prioridades haviam mudado.
Fiz, então, uma avaliação serena: aquele seria meu último mandato eletivo.
Em 2022, tomei uma decisão política ao apoiar a candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, com Geraldo Alckmin como vice.
Foi uma escolha baseada em leitura histórica.
Sempre entendi que o SUS só se viabilizou porque houve, no início da década de 1990, uma convergência ampla no Congresso Nacional, envolvendo diferentes correntes políticas.
Nesse processo, a participação de setores da esquerda foi fundamental, assim como o apoio da direita e do centro, permitindo a construção de um consenso em torno de um sistema de saúde universal.
Somei a isso a relação construída com Geraldo Alckmin desde a Constituinte, quando convivemos de forma próxima em Brasília.
Considerei, naquele momento, que apoiar aquela candidatura era coerente com minha trajetória.
Em 2025, mais de três décadas depois da aprovação da licença-paternidade, voltei a ser chamado ao debate público.
Diante do movimento nacional pela ampliação da licença para 15 dias, participei das articulações em Brasília a pedido do deputado federal Pedro Campos, de Pernambuco.
A construção foi exitosa.
Na noite da votação, parlamentares de diferentes correntes ideológicas registraram um gesto de reconhecimento institucional a uma trajetória marcante, associando aquele novo avanço ao discurso que fiz ainda na Constituinte.
Hoje, aos 80 anos, mantenho interlocução política ativa e dedico parte do meu tempo à reflexão e à escrita.
Acompanho com atenção os rumos do Brasil e do Paraná, assim como o cenário internacional, especialmente nos temas da saúde pública e da política institucional.
Sou filiado ao PSB, partido do vice-presidente da República, mas sempre procurei preservar o diálogo com diferentes campos ideológicos, sem antagonismos pessoais.
Ao longo dos anos, recebi gestos de reconhecimento — e até pedidos de desculpas — de pessoas que, em momentos difíceis, estiveram em lados opostos da minha trajetória pública.
Encaro esses episódios com serenidade, como parte natural da vida política de quem atravessou períodos intensos da história do país.
Nesta fase da vida, o que me move é a preocupação genuína com o futuro, especialmente com a capacidade do Brasil e do Paraná de preservar suas instituições, valorizar políticas públicas estruturantes e seguir construindo caminhos de desenvolvimento com responsabilidade e compromisso social.
*Alceni Guerra, ex-ministro da Saúde e da Criannça. Ex-deputado Constituinte e ex-prefeito de Pato Branco (PR).
Quem é Alceni Guerra
Alceni Guerra é médico pediatra formado pela Universidade Federal do Paraná e uma das figuras mais marcantes da vida pública brasileira desde a redemocratização. Ex-deputado federal constituinte, ex-ministro da Saúde e ex-ministro da Criança, teve papel decisivo na consolidação do SUS, na implantação do tratamento gratuito para pessoas com HIV/AIDS, nas campanhas nacionais de vacinação e na criação dos CAICs, centros de educação integral inspirados por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Prefeito de Pato Branco, chefe da Casa Civil do Paraná no governo Jaime Lerner e parlamentar por três mandatos, construiu uma trajetória marcada por defesa de políticas públicas estruturantes, enfrentamento de crises políticas e compromisso permanente com saúde, educação e inclusão social.