A política do vizinho Paraguai, que parecia caminhar muito bem, virou de ponta-cabeça nesta quinta-feira (5), quando o presidente Santiago Peña renunciou ao mandato. A medida foi anunciada por meio de uma carta tornada pública depois do protocolo, no Congresso, de um pedido de impeachment de seu mandato em consequência do escândalo envolvendo o banco digital Ueno, que fechou as portas e deixou seus clientes a ver navios. Em seu lugar assumirá o vice Pedro Alliana, que tem 52 anos e na infância foi jogador da seleção paraguaia de basquete.
"Hoje devemos mostrar, mais uma vez, que respeitamos a democracia”, disse Peña ao justificar a renúncia. Ele vinha sendo alvo de duros ataques por conta do escândalo envolvendo o banco, do qual foi acionista até 2025. Anteriormente já tinha caído o presidente do Banco Central e ex-diretor do Ueno, Carlos Carvallo, acusado de fazer vistas grossas ao problema, que causou uma enorme revolta entre os paraguaios.
Para analistas políticos do país, se Peña não renunciasse acabaria afastado do cargo, pois todas as bancadas da Câmara dos Deputados já haviam anunciado que votariam favoravelmente ao pedido de impeachment.
A oposição o acusa de conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, entre outros pontos. “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... o senhor é a origem desse monstro que criou”, declarou a deputada oposicionista Rocío Vallejo durante a sessão, pouco antes da apresentação do pedido de renúncia, feita logo após a abertura de sessão extraordinária para tratar do impeachment.
Economista de formação, Peña foi acionista do grupo proprietário do Ueno até março do ano passado. O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
A CARTA-RENÚNCIA
"Queridos compatriotas, hoje me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância.
A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos toca viver. Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas.
Faço-o com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que estabelecemos para nós mesmos como nação. Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai.
Também quero pedir desculpas ao povo, caso eu tenha falhado em algum momento; nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim. Assumi esta responsabilidade todos os dias com a vontade de trabalhar pelo Paraguai, mas hoje a minha prioridade é uma só: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao nosso sistema financeiro. Por trás de cada depósito, há anos de esforço, sacrifício e projetos familiares.
Meu maior desejo é que se garanta a devolução desses recursos, que o Fundo de Garantia de Depósitos cumpra a sua finalidade e que sejam protegidos os fundos públicos e os recursos que pertencem a todos os paraguaios.
Queridos compatriotas, somos um país que atravessou momentos muito difíceis e que sempre soube se reerguer. Confio profundamente na força do nosso povo e na capacidade das nossas instituições para superar esta situação.
Hoje, devemos demonstrar, mais uma vez, que a democracia é respeitada, que as instituições são preservadas e que o Paraguai está acima das nossas diferenças. Nenhum cargo é mais importante do que a estabilidade da República; nenhuma pessoa está acima do Paraguai.
Agradeço pela confiança, por cada momento vivido e por terem me dado a honra de servir a esta grande nação. Que Deus abençoe cada família paraguaia e que Deus abençoe o Paraguai". (Foto: Reprodução Youtube Governo do Paraguai)