O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil com destino aos Estados Unidos na madrugada desta terça-feira, 27 de outubro, segundo aliados do parlamentar e fontes do governo norte-americano. A saída ocorre menos de 48 horas depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno e do descumprimento da ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar os passaportes à Polícia Federal (PF).
Nenhuma autoridade brasileira ou dos Estados Unidos confirmou oficialmente a saída até o início da noite desta terça-feira. O investidor Simón Levy, que se apresenta como aliado do presidente Donald Trump, afirmou em publicação nas redes sociais, por volta das 15h30, que Flávio Bolsonaro chegou em segurança ao território americano. Segundo Levy, a operação teria sido articulada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e recebido o nome de Operação Alba.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos informou a uma repórter da TV Globo que concederá vistos a Flávio Bolsonaro e à sua família e permitirá a entrada deles no país. O órgão não confirmou se o senador já estava em solo americano. A Reuters e o jornal The New York Times relataram a viagem com base em fontes anônimas. A Polícia Federal apura as circunstâncias da saída e não identificou passagem por ponto regular de controle migratório brasileiro.
A cronologia do caso é curta e jurídica. Na noite de domingo, 25 de outubro, Moraes determinou que Flávio Bolsonaro entregasse os passaportes em 24 horas e proibiu sua saída do país. O prazo terminou na manhã desta terça-feira sem que os documentos fossem apresentados. A PF cancelou os passaportes do senador. Ao pedir a medida, a corporação apontou risco concreto de evasão do território nacional e suspeita sobre o destino de recursos ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O senador é alvo de duas investigações criminais no STF. A primeira apura lavagem de dinheiro em suposto esquema envolvendo o advogado Willer Tomaz e empresas de apostas. A segunda examina o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que a relação com Willer Tomaz é de amizade, sem sociedade empresarial.
No Senado, o PSOL protocolou pedido de cassação contra Flávio Bolsonaro na Mesa Diretora. O documento pede apuração de abandono de cargo, suspensão da remuneração durante a ausência e análise da perda do mandato. Assinam os deputados Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Fernanda Melchionna (PSOL-RS), Glauber Braga (PSOL-RJ), Fábio Félix (PSOL-DF), Jones Manoel (PSOL-PE), Renato Freitas (PT-PR) e a vereadora Vivi Reis (PSOL-PA). Cabe ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ou à Mesa Diretora decidir se o pedido avança.
No Supremo, três deputados do PT pediram o bloqueio de bens, direitos e valores do senador até o limite de R$ 6 bilhões. Lindbergh Farias (PT-RJ), Alencar Santana (PT-SP) e Rogério Correia (PT-MG) também solicitaram que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste em 24 horas. A petição cita a declaração de patrimônio de Flávio Bolsonaro à Justiça Eleitoral, de R$ 8,18 milhões, incluindo uma casa no Lago Sul, em Brasília, avaliada em R$ 6,22 milhões.
O mandato de Flávio Bolsonaro no Senado termina em 1º de fevereiro de 2027. Pela jurisprudência atual do STF, a Corte mantém a competência para julgar ex-parlamentares quando os crimes investigados estão ligados ao exercício da função pública. Ou seja, deixar o cargo não encerra os processos, e a viagem ao exterior não suspende a tramitação.
A saída também isola o senador no campo político. O PL reconheceu a vitória de Lula no dia 26 de outubro, e o vice na chapa derrotada, Alfredo Gaspar, seguiu o mesmo caminho nesta terça-feira. Aliados do senador dizem que ele sofre perseguição política e que a decisão de Moraes se baseou em declaração de Eduardo Bolsonaro, que mora nos Estados Unidos desde 2025 e defendeu a saída do irmão do país em caso de derrota.
A consequência prática é dupla. No plano jurídico, o caso deixa de ser uma disputa sobre passaportes e passa a envolver cooperação internacional, bloqueio de bens e eventual cassação. No plano político, transforma a principal liderança da oposição em um alvo fora do território nacional, enquanto o partido tenta preservar trânsito com o novo governo e com as Mesas do Congresso.
O que se sabe até agora é que o governo dos Estados Unidos abriu a porta, que o Senado brasileiro ainda não decidiu o que faz com o pedido de cassação e que o STF segue com dois inquéritos abertos. O desfecho depende de decisões que serão tomadas longe da tribuna e perto dos autos.