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A rota da fuga de Flávio Bolsonaro e o que ainda não fecha
A rota da fuga de Flávio Bolsonaro e o que ainda não fecha
Por Administrador
Publicado em 28/10/2026 10:02
POLITICA
A fuga de Flávio Bolsonaro, segundo as redes sociais.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50 de 27 de outubro, quarenta minutos depois de a Polícia Federal (PF) encerrar o prazo para ele entregar os passaportes, e embarcou num jato privado argentino que o levou ao Equador antes de seguir para Miami. A cronologia oficial, divulgada pela Direção Nacional de Migrações da Argentina às 2h01 desta quarta-feira, 28 de outubro, desmonta a versão que circulou durante todo o dia anterior, de que o senador já estava em solo americano.

 

A sequência é esta:

 

25 de outubro, noite — o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determina que Flávio Bolsonaro entregue os passaportes em 24 horas, proíbe sua saída do país e manda incluí-lo no Sistema Nacional de Registro de Estrangeiros, o Sonar.

26 de outubro, manhã — o senador diz ter sido intimado pela PF na saída da casa do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. Em vídeo, afirma que não deixaria o Brasil.

27 de outubro, 11h — vence o prazo. Os passaportes brasileiros são cancelados pela PF.

27 de outubro, 22h50 — Flávio Bolsonaro, a mulher Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e as filhas Carolina e Luiza entram na Argentina pela Ponte Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú (Misiones).

27 de outubro, 23h30 — o grupo decola de Puerto Iguazú em um Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, da empresa Baires Fly S.A., com destino declarado a Guayaquil.

28 de outubro, por volta de 5h40 — a aeronave é registrada na área de Guayaquil.

28 de outubro, 6h22 — o jato decola de Guayaquil rumo ao norte.

28 de outubro, previsão entre 10h30 e 10h40 — chegada ao aeroporto executivo Opa-locka, em Miami. O FlightAware registrava 10h39; a Agência Brasil e o g1, 10h40.

A aeronave não cruzou o espaço aéreo brasileiro. Segundo o rastreamento divulgado pelo g1 e confirmado pelo Blog do Esmael, o voo sobrevoou Paraguai, Bolívia e Peru. O Gulfstream G400 tem capacidade para 12 passageiros e dois pilotos, com poltronas que viram camas, e foi contratado junto à Baires Fly, empresa argentina que a Agência Pública identificou como a mesma usada por Javier Milei para ir aos Estados Unidos depois de eleito em 2023. À época, o voo de Milei custou entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,35 milhão, conforme a apuração da Pública, que também aponta vínculos da empresa com o entorno do ex-presidente Maurício Macri.

 

O ponto mais opaco é a passagem pela fronteira. Flávio Bolsonaro estava incluído no Sonar, sistema que deveria acusar sua saída, e a PF informou não haver registro de passagem por posto regular de controle migratório brasileiro. Entre países do Mercosul, a carteira de identidade é aceita como documento de viagem, o que explica a menção da autoridade argentina a “documentação hábil”. O que não está esclarecido é como ele atravessou a ponte sem ser detido do lado brasileiro, e essa pergunta ainda não tem resposta oficial.

 

A versão que dominou o noticiário de 27 de outubro era outra. Reuters, New York Times, BBC e Financial Times publicaram, com fontes anônimas, que o senador já havia chegado aos Estados Unidos. O registro migratório argentino mostra que, quando essas informações circulavam, ele ainda não havia passado por nenhum posto de controle argentino, e o avião ainda estava em solo. A Agência Pública foi um dos veículos que confrontou a cronologia com o documento oficial.

 

Do lado americano, o Departamento de Estado informou na terça-feira que concederá vistos a Flávio Bolsonaro e à família. O governo não detalhou a categoria dos vistos nem se já foram emitidos. O presidente Donald Trump afirmou nesta quarta-feira que “aprovaria” a entrada e voltou a atacar a eleição brasileira sem apresentar provas: “A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível.” Na véspera, Trump disse a jornalistas acreditar que o senador estava na Argentina.

 

A decisão americana gerou reação imediata no Congresso dos Estados Unidos, a uma semana das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. O Comitê de Relações Exteriores da Câmara, ligado aos democratas, comparou o tratamento dado ao brasileiro ao de pessoas que fogem de conflitos no Sudão e no Haiti: “Nenhum asilo para pessoas fugindo da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti, mas Rubio está estendendo o tapete vermelho para Bolsonaro.” O deputado Joaquin Castro escreveu que “perder uma eleição não é motivo para pedir asilo” e cobrou explicações do governo Trump ao Congresso. O candidato democrata Isaiah Martin chamou Flávio Bolsonaro de “imigrante ilegal criminoso”, expressão que o senador não sofreu em decisão judicial alguma e que o Blog do Esmael registra como declaração política, não como fato.

 

Na Argentina, a passagem pelo país virou caso de Justiça. A deputada nacional Marcela Pagano, ex-La Libertad Avanza, apresentou denúncia penal na Justiça Federal de Puerto Iguazú e pediu a preservação das câmeras da ponte e do aeroporto, dos planos de voo, da lista de passageiros e do contrato do fretamento. Quer que se investigue tráfico de pessoas em trânsito e descumprimento de deveres de funcionário público. “A fronteira argentina não é um passillo VIP de ninguém”, escreveu. O governo de Javier Milei, que não parabenizou Lula pela vitória, não se pronunciou sobre o caso até a manhã desta quarta-feira.

 

No Brasil, o episódio aprofunda dois inquéritos no STF: um sob relatoria de Moraes, sobre lavagem de dinheiro em negócios ligados ao advogado Willer Tomaz e a casas de apostas, e outro sob André Mendonça, sobre o financiamento do filme “Dark Horse”. Flávio Bolsonaro nega irregularidades. No Senado, o PSOL protocolou pedido de cassação, e deputados do PT pediram o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens. O mandato termina em 1º de fevereiro de 2027, quando ele perde o foro por prerrogativa de função.

 

Não há, até agora, pedido de prisão preventiva divulgado, nem informação oficial sobre pedido de asilo. Aliados do senador falam em asilo; o Departamento de Estado fala em visto. A diferença não é semântica: muda o procedimento, o prazo e o grau de proteção. O senador também não se pronunciou desde a saída do país; aliados dizem que ele falará nesta quarta-feira.

 

O que falta explicar é objetivo: como a travessia ocorreu sem registro brasileiro, quem pagou o fretamento, qual a categoria dos vistos, o que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) argentina fez diante do plano de voo e qual será a resposta da PF e do STF nas próximas horas. O Blog do Esmael mostrou que o STF negou buscas contra o senador e o g1 corrigiu o texto e que a rota foi confirmada pela Argentina. A cobertura segue com cada documento que aparecer.

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