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Perícia de Dark Horse não rastreou dinheiro ligado a Vorcaro
Perícia de Dark Horse não rastreou dinheiro ligado a Vorcaro
Por Administrador
Publicado em 26/08/2026 08:43
BANCO MASTER
Perícia de Dark Horse não rastreou dinheiro ligado a Vorcaro

A perícia privada apresentada pela produtora de Dark Horse não acompanhou o destino dos recursos depois que eles chegaram às empresas contratadas para a produção do filme, segundo o próprio responsável pelo laudo. A revelação ganha novo peso nesta quarta-feira (26), depois de a Polícia Federal (PF) passar a ter acesso ao material bruto da investigação paulista, incluindo documentos, dados extraídos de equipamentos e registros da cadeia de custódia.

O ponto muda a pergunta central sobre o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Não basta saber se houve transferência direta de dinheiro público para a produção. A questão passa a ser reconstruir o caminho efetivo dos recursos depois dos pagamentos aos fornecedores.

Anísio Costa Castelo Branco, responsável pela perícia contratada pela defesa da Go Up Entertainment, afirmou ao jornalista Paulo Motoryn que seu trabalho não acompanhou o que as empresas contratadas fizeram com o dinheiro depois de receber os pagamentos. A informação foi publicada em 21 de agosto na newsletter Noites Húngaras e repercutida pelo ICL Notícias.

O laudo, portanto, tem um alcance mais limitado do que a expressão “prestação de contas” pode sugerir. A perícia identificou transferências e despesas atribuídas à produção, mas não fez uma investigação financeira completa sobre o destino final dos valores pagos.

O próprio perito também admitiu que não comparou os preços praticados em Dark Horse com os valores de mercado de outras produções cinematográficas. Segundo o relato de Motoryn, o escopo do trabalho foi verificar principalmente se recursos públicos haviam chegado diretamente ao filme.

Isso não significa que a perícia tenha concluído que houve desvio de dinheiro. Significa que o laudo não responde, por si só, a uma pergunta diferente: o que aconteceu com os recursos depois que saíram da estrutura de financiamento do filme e foram pagos às empresas fornecedoras.

R$ 75 milhões declarados para o filme

A Go Up Entertainment declarou despesas de aproximadamente US$ 13,3 milhões, equivalentes a pouco mais de R$ 75 milhões. A perícia dividiu os gastos entre Estados Unidos e Brasil e apontou o fundo Havengate Development LP como responsável por aporte equivalente ao custo total identificado para a produção.

Segundo o material pericial divulgado, cerca de US$ 9,6 milhões teriam sido gastos nos Estados Unidos e quase US$ 4 milhões no Brasil. A análise também apontou que o Havengate foi a estrutura financeira que aportou os recursos utilizados no filme.

O fundo ganhou importância na investigação porque está relacionado ao circuito financeiro que recebeu cerca de R$ 61 milhões associados ao financiamento negociado por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Uma pessoa ligada ao Havengate é Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

A existência dessa cadeia financeira, porém, não permite concluir automaticamente que todos os recursos pagos aos fornecedores tiveram origem em Vorcaro. Esse vínculo precisa ser demonstrado por documentos bancários e pela reconstrução das operações financeiras.

É justamente aí que a limitação admitida pelo perito ganha relevância.

O que a perícia verificou

O trabalho privado encontrou registros das transferências realizadas pelo Havengate para a estrutura da produção e organizou despesas nacionais e internacionais. A análise também concluiu que não havia transferência direta de recursos públicos para o filme, conforme o escopo adotado pela defesa.

Mas a conclusão sobre ausência de dinheiro público direto não equivale a uma auditoria integral do caminho do dinheiro.

Uma coisa é identificar que determinada quantia saiu de uma conta e chegou a uma empresa contratada. Outra é verificar quem efetivamente recebeu o dinheiro depois, qual serviço foi prestado, se o valor corresponde ao serviço, quais empresas participaram da operação e se houve novas transferências.

A perícia, segundo Castelo Branco, não avançou nessa segunda etapa.

PF recebe material que pode ampliar o rastreamento

A diferença de escopo ganha importância porque a Polícia Federal agora terá acesso ao conjunto de provas apreendidas pela Polícia Civil de São Paulo durante a investigação sobre a produtora.

O pedido da PF incluía não apenas documentos e relatórios, mas também os dados brutos extraídos das mídias apreendidas e os registros relativos à cadeia de custódia. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o compartilhamento.

A medida permite que investigadores federais façam novas análises sobre material que não necessariamente tenha sido explorado na mesma profundidade pela investigação paulista. O conteúdo interessa a diferentes frentes abertas em Brasília, inclusive à apuração sobre possíveis irregularidades envolvendo emendas parlamentares destinadas a estruturas relacionadas ao filme.

A PF também investiga o circuito financeiro relacionado aos recursos destinados à produção, enquanto outra frente no STF trata dos áudios nos quais Flávio Bolsonaro aparece negociando recursos com Vorcaro para o filme.

A diferença entre “dinheiro privado” e destino do dinheiro

Flávio Bolsonaro passou a sustentar que o caso estava encerrado e classificou o episódio como “página virada” em 20 de agosto. O senador também afirmou que a prestação de contas do filme já havia sido apresentada.

O problema é que a própria perícia utilizada como referência para essa prestação de contas não acompanhou o dinheiro até seu destino final depois dos pagamentos aos fornecedores.

A Go Up informou que o filme custou cerca de R$ 75 milhões. O laudo privado registrou despesas e apontou a origem privada dos recursos analisados, mas não detalhou os financiadores nem apresentou as notas fiscais emitidas pelos fornecedores no documento divulgado.

Há, portanto, três perguntas diferentes no caso.

A primeira é se dinheiro público foi transferido diretamente para a produção.

A segunda é qual foi a origem dos recursos privados utilizados para financiar o filme.

A terceira é qual foi o caminho desses recursos depois que chegaram às empresas contratadas.

A perícia respondeu parcialmente às duas primeiras e, por admissão do próprio responsável técnico, não respondeu à terceira.

O que falta esclarecer

O ponto central agora é documental: reconstruir a cadeia financeira completa.

Isso significa cruzar transferências do Havengate, contas da produtora, pagamentos a fornecedores, notas fiscais, contratos, serviços efetivamente prestados e eventuais transferências posteriores.

Também será necessário separar os recursos destinados especificamente à produção daqueles que tenham transitado por estruturas relacionadas aos envolvidos no financiamento.

Nada disso permite antecipar uma conclusão sobre irregularidade. Mas permite dizer que a perícia privada não encerrou a investigação sobre o destino final dos recursos.

A nova etapa da PF poderá testar justamente aquilo que o laudo não fez: seguir o dinheiro para além do primeiro destinatário.

É nesse ponto que o caso Dark Horse deixa de ser apenas uma discussão sobre a natureza pública ou privada do financiamento e passa a ser uma investigação sobre rastreabilidade financeira.

Para um filme cujo financiamento foi colocado no centro da disputa presidencial de 2026, a pergunta mais simples continua sendo também a mais difícil: depois que o dinheiro saiu do fundo e chegou aos fornecedores, para onde ele foi?

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