A Câmara dos Deputados atropelou a 6x1, com 472 votos a favor e 22 contra, no primeiro turno, e 461 a 19 no segundo. A padroeira do milagre é a Santa Urna Eletrônica, detestada pelos demônios da democracia. A PEC que extingue a escala e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, mantendo o salário, passou com uma margem que envergonha qualquer argumento de que “a sociedade está dividida” sobre o assunto. E não se engane, não era amor, mas o medo da cilada eleitoral, parafraseando os filósofos do grupo Molejo. Com isso, os deputados não serão chamados de “inimigos do povo” pelos adversários em outubro por causa da 6x1 (há outros motivos para a alcunha, mas, deste, eles se safaram).
A Câmara, aliviada, empurrou esse ônus para o Senado. Dois partidos instruíram suas bancadas a votar contra: o Novo, de Romeu Zema, e o Missão, de Renan Santos. A lógica é conhecida: o eleitorado da extrema direita é historicamente avesso a direitos trabalhistas. Já o PL, partido de Flávio Bolsonaro, tentou uma manobra de última hora para travar a votação. Muitos deles, que defendem o 7x0, apoiaram a 4x3 só para inviabilizar o acordo costurado para o tema. O presidente da Câmara, Hugo Motta, ignorou a estratégia. O PL, então, liberou o voto da bancada, afinal, o partido não é suicida.
Mas o caminho no Senado tem armadilha. A base bolsonarista na Casa Alta quer vincular à PEC do fim do 6x1 à proposta da “Hora Trabalhada” que, na prática, esvaziaria a conquista trazida pela redução de jornada, mantendo o trabalhador eternamente à espera de ser chamado pelo patrão. É sim a liberdade. Liberdade para se lascar.
Os senadores têm diante de si uma escolha: ser o passo seguinte de uma mudança histórica ou ser o muro que a travou. Resta saber se os senadores têm o mesmo bom senso ou o mesmo medo de perder mandato que os deputados. O cronômetro eleitoral segue em contagem regressiva. E os trabalhadores estão assistindo. Tic-tac.