Um jornal morre quando deixa de mandar em si mesmo, quando o medo do proprietário pesa mais do que o dever de informar. A agonia nem sempre é barulhenta. Às vezes, parece apenas “reestruturação”, planilha, corte, silêncio.
O exemplo recente do Washington Post é didático e doloroso. Em fevereiro de 2026, o jornal entrou numa dessas espirais em que cada demissão anuncia a próxima: cortes de cerca de um terço do quadro, redução de coberturas e a sensação de que a redação virou detalhe num negócio maior do dono.
A morte não começa na tesoura. Começa quando a missão vira inconveniente.
Pouca gente lembra como a profecia já estava escrita por volta de 2010. Havia, sim, um cronograma informal, quase fatalista, para a morte dos jornalões off-line, o papel perdendo a guerra do tempo real, a publicidade migrando e a distribuição virando custo insustentável. Alguns veículos entenderam o sinal e se reinventaram. Outros ficaram discutindo capa enquanto o mundo mudava de tela.
No Brasil, a cena é ainda mais irônica. No fim dos anos 1990, por volta de 1997, havia redação que tropeçava para abrir e-mail. O digital não era uma estratégia, era um incômodo. Nesse vácuo, muita gente aprendeu a fazer jornalismo sem pedir licença, cobrindo bastidores, eleições e os poderes com velocidade e método, enquanto os grandes ainda perguntavam “quem é esse tal de portal?”.
O que mata um jornal não é a internet. É a indecisão diante dela.
No Post, o dinheiro não era o problema em si. O dono, Jeff Bezos, comprou o jornal em 2013 por US$ 250 milhões, mas o veículo acumulou perdas expressivas: cerca de US$ 77 milhões em 2023 e estimadas em US$ 100 milhões em 2024, além de queda forte de tráfego vinda de busca orgânica.
Isso seria administrável, se houvesse projeto. O enredo que aparece nas reportagens e análises é outro: quando a política interna, as pressões externas e os interesses paralelos entram na sala, a independência editorial vira variável de ajuste, e o jornal passa a “evitar problemas”, justamente quando deveria criá-los para os poderosos.
Aí acontece o mais triste. O jornal continua existindo, mas já não incomoda.
Corta-se esporte, fecha-se editoria, reduz-se exterior, suspende-se podcast, enxuga-se o que dá identidade. A marca fica, a musculatura vai embora. E quando o leitor percebe que o jornal não entrega mais surpresa, denúncia e contexto, cancela. O círculo se completa.
O obituário de um jornal é escrito antes da última edição. Ele começa quando o dono escolhe a paz com os poderosos no lugar do atrito com os fatos.
Há quem diga que é “só mercado”. Não é. Uma imprensa forte é pilar democrático, mas a liberdade de imprensa tem uma condição material: precisa de imprensa, de redação, de repórter na rua e editor com autonomia. É por isso que a discussão sobre modelos importa, de fundações sem fins lucrativos a experiências digitais sustentáveis.
Um Blog cresce justamente onde os grandões falharam: no tempo real, no acesso gratuito, na política tratada com apuração, leitura de poder e compromisso público. Não é romantismo. É método. Quem sobrevive no digital entende que audiência não se “compra” com corte. Conquista-se com credibilidade, consistência e presença.
O jornal morre quando desiste de disputar o leitor pelo jornalismo, e passa a disputar o humor do proprietário.
Se o Washington Post serve de alerta, é porque mostra o risco de deixar a democracia na mão de bilionário e algoritmo. Jornal não é um ativo qualquer. Quando um veículo troca independência por conveniência, ele pode até continuar imprimindo ou publicando, mas já perdeu a alma.