Muita gente tem repetido que Luiz Inácio Lula da Silva “quebrou o país” porque a dívida estaria chegando a R$ 10 trilhões.
Antes de tirar conclusão, vale entender do que estamos falando.
Existem duas dívidas diferentes.
A primeira é a Dívida Pública Federal. É apenas o que o governo federal deve em títulos do Tesouro.
A segunda é a Dívida Bruta do Governo Geral. Ela soma governo federal, INSS, estados e municípios. É essa que aparece nas manchetes dos “10 trilhões” e é acompanhada pelo Banco Central do Brasil.
Sem separar essas duas coisas, os números ficam misturados.
Quando Jair Bolsonaro assumiu, no fim de 2018, o país tinha Dívida Pública Federal de R$ 3,877 trilhões e Dívida Bruta de R$ 8,107 trilhões.
Quando Bolsonaro deixou o cargo, no fim de 2022, a Dívida Pública Federal estava em R$ 5,951 trilhões e a Dívida Bruta em R$ 9,850 trilhões.
Esses foram os valores recebidos pelo governo seguinte em janeiro de 2023.
No fim de 2025, já no governo Lula, a Dívida Pública Federal chegou a R$ 8,635 trilhões e a Dívida Bruta a R$ 9,990 trilhões.
Em resumo: Bolsonaro recebeu a dívida bruta em R$ 8,107 trilhões e entregou em R$ 9,850 trilhões, num cenário de déficit estrutural e juros altos. Lula pegou nesse patamar e, em pouco mais de dois anos, a dívida bruta avançou até R$ 9,990 trilhões.
Nesse mesmo período, só a dívida do governo federal aumentou R$ 2,684 trilhões.
A pergunta é direta: para onde foi esse dinheiro?
Esse aumento não foi para um único lugar. Ele se dividiu em blocos bem conhecidos do orçamento.
Cerca de R$ 1 trilhão foi usado para pagar juros de títulos antigos. Esse dinheiro não vira escola, hospital ou obra. É apenas o custo de manter a dívida existente funcionando.
Aproximadamente R$ 700 bilhões foram para cobrir o déficit da Previdência, principalmente aposentadorias e pensões, que não se pagam sozinhas e precisam ser bancadas pelo Tesouro.
Mais de R$ 400 bilhões foram consumidos por programas sociais e benefícios, como Bolsa Família ampliado e outros auxílios.
Cerca de R$ 200 bilhões entraram em custeio e pessoal do governo. Aqui entram salários de servidores, encargos, reajustes de carreira, contratos de limpeza e vigilância, manutenção de prédios, sistemas de informática, ministérios, autarquias e estatais. É o custo diário da máquina pública funcionando.
Além disso, algo perto de R$ 150 bilhões foi para emendas parlamentares e outras despesas livres, definidas pelo Congresso e pelo governo.
Somando esses blocos principais, chegamos a cerca de R$ 2,45 trilhões.
A alta total da Dívida Pública Federal foi de R$ 2,684 trilhões.
A diferença, cerca de R$ 234 bilhões, vem de fatores financeiros: correção monetária dos títulos, variação cambial da parte externa da dívida, ajustes contábeis e diferenças entre valores empenhados, pagos e rolados.
Em termos práticos, o que aconteceu foi isso: o governo gastou mais do que arrecadou, precisou emitir novos títulos, esses títulos entraram no estoque da dívida.
Com juros altos, previdência deficitária e despesas obrigatórias grandes, a conta cresceu. É assim que a dívida chegou perto dos R$ 10 trilhões.