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Fim de uma era: venda da RPC diminui poder de clã mais tradicional da mídia paranaense
Fim de uma era: venda da RPC diminui poder de clã mais tradicional da mídia paranaense
Por Administrador
Publicado em 04/02/2026 08:48 • Atualizado 04/02/2026 08:50
Comunicação
Família Cunha Pereira, que dominou a comunicação no Paraná por décadas, agora se vê reduzida a dois jornais on-line

A venda da maior parte das ações que a família Cunha Pereira tinha na RPC, confirmada na semana passada, diminui significativamente o poder do mais tradicional clã da comunicação paranaense. Também parece ser um revés importante nos planos de Guilherme Cunha Pereira de usar a comunicação como meio de doutrinação moral. Os Lemanski, que agora controlam as emissoras de tevê, tendo os Cunha Pereira apenas como sócios minoritários, não têm a mesma visão do mundo e dificilmente darão continuidade ao projeto que vinha sendo implantado no grupo.

O principal veículo que pertence exclusivamente à família a partir de agora é a Gazeta do Povo, centenário jornal curitibano que a partir de 2015 deu uma forte guinada rumo ao conservadorismo - concentrando boa parte de sua cobertura em temas ideológicos e dando destaque para articulistas da extrema-direita. Uma fórmula que levou o jornal a perder prestígio e a se isolar de boa parte de seu antigo público.

Os Cunha Pereira também continuam sendo proprietários da Tribuna do Paraná, comprada do ex-governador Paulo Pimentel e que, no ano passado, deixou de circular em papel, reduzindo sua atuação ao on-line - depois de liderar por muitos anos as vendas em banca na cidade. As duas rádios do grupo também foram vendidas para os Lemanski.

Fechamentos em série

Herdeiros de Francisco Cunha Pereira Filho, advogado que entrou para o ramo da comunicação em 1962 ao comprar a Gazeta do Povo, os irmãos Guilherme e Ana Amélia Cunha Pereira assumiram a direção do império deixado pelo pai mesmo antes de ele morrer, em 2009. Além da Gazeta, Francisco deixou para os filhos oito emissoras espalhadas pelo Paraná, todas afiliadas à Rede Globo, o Jornal de Londrina e duas rádios em Curitiba.

Desde que assumiram a gestão dos negócios da família, os irmãos tiveram poucos êxitos e muitos contratempos. Já no começo de sua fase como gestores, criaram um novo jornal em Curitiba, o Primeira Hora, um tabloide popular sem qualquer dos atrativos que fazem vender os tabloides populares. A iniciativa durou pouco mais de um ano: no carnaval de 2002, os 36 jornalistas que haviam abraçado o projeto foram dispensados ou integrados a outros órgãos do grupo.

Os irmãos também tentaram criar um novo canal de tevê. No cabo, passaram a transmitir a ÓTV em 2011, com programas de entrevistas, telejornais locais e algumas incursões no entretenimento. A fórmula não funcionou e em 2014 a tevê saiu do ar.

O Jornal de Londrina também não resistiu: depois de 26 anos de existência, e tendo chegado a ser um dos principais veículos do Norte do Paraná, fechou as portas alguns anos depois de ser assumido pelos irmãos, em 2015. A Gazeta de Maringá, que funcionou apenas on-line, criada pelos filhos, foi outra que deixou de existir. Iniciativas fora do mundo da comunicação, como um festival de música chamado Lupaluna, também não prosperaram.

Gazeta radicalizada

Depois de assumirem a gestão da Gazeta do Povo em definitivo, com a morte de Francisco em 2009, Ana Amélia e Guilherme apostaram durante um período em um jornalismo combativo. O jornal enfrentava problemas financeiros, mas bancou reportagens importantes, como a série Diários Secretos, em parceria com a RPC, e diversas outras iniciativas importantes, como as reportagens de denúncia assinadas por Mauri König.

Em pouco tempo, o jornal, que tinha fama de chapa branca, passou a ser bem visto nacionalmente e começou a ganhar prêmios, incluindo um Esso nacional para os Diários Secretos e um Esso regional para a série de reportagens Crime Sem Castigo, que analisou o modo como a Polícia Civil investigava os homicídios em Curitiba.

A partir de 2015, porém, com a ascensão de Leonardo Mendes Jr. à direção de redação, a Gazeta mudou radicalmente. Diminuiu a circulação impressa, que depois foi enfim interrompida; deixou em segundo plano o jornalismo combativo que havia marcado o jornal nos anos anteriores; e passou a se dedicar, sobretudo, a um jornalismo ideológico radicalizado.

Com colunistas como Alexandre Garcia, J.R. Guzzo e Rodrigo Constantino, passou a defender ideias radicais. Foi o único veículo a não demitir Constantino quando ele disse, em público, que caso sua filha fosse estuprada depois de beber, não culparia o estuprador.

Em 2018, criou um Observatório da Doutrinação nas Escolas, para que pais e alunos pudessem denunciar professores que estivessem "doutrinando" em sala de aula. Às vésperas do segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, publicou editorial dizendo que a candidatura de Haddad era antidemocrática. No dia anterior à votação, pediu voto para Bolsonaro.

TV inquebrável

A todas essas, a RPC era o grande patrimônio financeiro da família - afinal, parecia impossível quebrar uma afiliada da Rede Globo, quem dirá oito. Os balanços das tevês, publicados discretamente no Diário da Tarde, um veículo virtualmente inexistente, mantido pela família apenas para publicar editais desse tipo, mostravam lucros anuais que beiravam a centena de milhões de reais.

Era de lá que os Cunha Pereira tiravam dinheiro para bancar o projeto doutrinário da Gazeta do Povo. Em 2018, por exemplo, a Gazeta teve prejuízo anual de cerca de R$ 25 milhões (com despesas da ordem de R$ 50 milhões). A família usava o lucro das empresas superavitárias para manter o projeto rodando.

Na tevê, porém, os irmãos não podiam fazer o jornalismo que gostariam. A pregação ideológica esbarrava no fato de se tratar de uma afiliada da Globo - a rede não aceita que suas parceiras tenham certos tipos de comportamento. Sendo assim, faria sentido que, em nome do projeto ideológico, caso fosse necessário abrir mão de algo, seria a tevê, mesmo que se tratasse da galinha dos ovos de ouro.

Segundo informações de bastidores que circularam na semana passada, a venda das ações da RPC teria rendido aos Cunha Pereira cerca de R$ 300 milhões - rumores dão conta de que a rede tem um valuation de R$ 700 milhões.

O que vem pela frente

A venda das ações da RPC fez surgirem duas perguntas. Uma: a RPC, nas mãos de Mariano Lemanski, deve mudar sua forma de atuação? Outra: e os Cunha Pereira, sem a tevê, como ficam?

Quanto à tevê, é difícil prever mudanças drásticas. Quem dita a cartilha em muitos aspectos é a cabeça de rede, no Rio de Janeiro. Além disso, Lemanski, que assim como Guilherme e Ana Amélia é herdeiro dos veículos, da segunda geração, já é sócio há muito tempo e não parece disposto a fazer inovações de grande porte.

Já no caso dos Cunha Pereira, o caminho parece ser tentar reverter os problemas financeiros graves da Gazeta do Povo, que embora esteja sangrando dinheiro continua apostando na mesma linha editorial radicalizada. Por outro lado, a família abriu uma faculdade em São Paulo e, segundo Guilherme Cunha Pereira afirmou na semana passada, pretende "atuar em outras frentes", embora ainda não seja claro de que se trata.

O que parece evidente é que os projetos passarão mais uma vez pela ideia de moral cristã que embasa as decisões de Guilherme, um numerário da Opus Dei que sempre coloca esse como ponto central de suas decisões.

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