Theodore Dalrymple, psiquiatra britânico que trabalhou por mais de duas décadas em prisões e hospitais públicos atendendo a população mais pobre e marginalizada, dedicou boa parte de sua obra a descrever um fenômeno incômodo. O Estado de bem-estar social não socorre o infortúnio. Ele organiza o erro. Ele sistematiza a desordem. Ele transforma escolhas ruins em um modo de vida estável. Ele se converte em uma verdadeira fábrica de irresponsáveis.
Como o próprio Dalrymple escreveu, “o Estado de bem-estar não apenas falhou em reduzir o comportamento disfuncional. Ele o institucionalizou, o normalizou e o tornou um modo de vida previsível”. Esta é a chave para compreender o que acontece diante de nossos olhos.
Enquanto isso, quem trabalha, quem se organiza, quem posterga prazeres, quem limita filhos ao que pode sustentar, quem paga impostos financia o ciclo. Não recebe quarto de hotel. Não recebe comida paga. Não recebe acolhimento permanente. Recebe apenas a conta.
O Estado que se apresenta como compassivo passa a operar como um distribuidor de incentivos morais distorcidos. Ele protege o erro e penaliza o acerto. Ele estimula a reprodução do fracasso. Ele cria dependência onde deveria criar autonomia. Ele multiplica tragédias privadas que depois chama de problema social.
O resultado não é inclusão. É perpetuação. Não é dignidade. É estagnação. No ritmo atual, esse casal terá o sexto filho, o sétimo, o oitavo. Todos recolhidos. Todos institucionalizados. Todos alimentados por um sistema que jamais exigiu mudança real. E a fábrica seguirá operando.
Não por acaso, Dalrymple insistia. O maior pecado do Estado de bem-estar não é gastar muito. É gastar mal. É ensinar que escolhas não importam. É ensinar que não existe custo para destruir a própria vida e a dos filhos. Esse Estado não salva. Ele treina. Ele habitua. Ele produz irresponsáveis.
Bruno Souza, mestre em Sociologia Política (UFSC), foi secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis, deputado estadual e vereador