Carlos Antonio Reis
Se uma intervenção na Venezuela, com a prisão do ditador Nicolás Maduro, fosse de fato um ato de orientação voltado para a destituição de um governo autoritário, ela deveria ser celebrada. No entanto, o bem-estar da população venezuelana não parece importar tanto assim. Afinal, tantas ditaduras proliferaram pelo mundo, na Europa, na Ásia, na África e nas Américas, e nem por isso os Estados Unidos tomaram atitudes mais severas; quando muito, aplique algum embargo econômico.
Com alguns países, “não dá”. China e Rússia, por exemplo, estão fora do alcance de intervenções diretas. Já outros regimes, de menor importância económica e bélica, simplesmente não despertam interesse. Assim, a narrativa construída ao longo dos últimos meses, a de derrubar um “governo do narcotráfico”, não passa, em grande parte, de uma construção de consenso baseada na especificação da prisão de Maduro.
Aqui, vale um parêntese: evidentemente, nenhum ditador, tirano ou governante sanguinário deveria se manter no poder. De fato, reconhecemos que o povo venezuelano, de Hugo Chávez a Maduro, sofre as consequências consequências desse modelo de governo: violência do Estado, expropriação e nacionalização de empresas e propriedades, inflação, fome, censura, perseguição a opositores, manipulação eleitoral e migração em massa.
O sofrimento do povo venezuelano não é argumento retórico; é um drama humano. Por isso, a perspectiva de queda do regime, em si, poderia sim ser motivo de esperança.
Mas, infelizmente, o presidente Trump teria agido mais por interesse econômico do que por razões humanitárias. O que estaria por trás dessa intervenção é o petróleo. Lembro ao caro leitor que a Venezuela é um dos maiores detentores de reservas de petróleo do mundo.
Observe-se que Trump teria tentado negociar com Maduro por uma via “diplomática”, oferecendo inclusive uma salva-conduto para que deixasse o país e passasse a viver no exterior. Não fosse a arrogância e a prepotência de Maduro, provavelmente estaria hoje em alguma mansão,talvez até nos próprios Estados Unidos ,apreciando um charuto cubano.
É preciso lembrar, também, que os americanos se veem pressionados pela China e pela Rússia, que estão à frente de uma corrida insana por petróleo e estratégias minerais. Diga-se de passagem que Trump negocia com os russos uma saída para o conflito com a Ucrânia. E por quê? Simples: “eu cuido do meu entorno” (os países latino-americanos) e vocês se ocupam “do entorno de vocês” (a Europa). Trato feito.
Mesmo sendo aliados da Venezuela, é provável que a Rússia se limite a manifestar críticas e condenações diplomáticas, e só. Nessas alturas, você deve estar se perguntando: se eu não concordo com a ditadura socialista na Venezuela, o que sugiro? Agora, é simples: pressão internacional, apoio a mecanismos multilaterais com estímulo a uma transição conduzida pelo próprio povo, sanções econômicas e desestabilização política do regime. Penso que, com ajuda internacional, cada país deve resolver seus problemas internos.
Aplaudir uma ação americana sem a mínima avaliação fria e adequada abre um precedente perigoso para outros países, inclusive o Brasil, por conta dos disputados elementos de terras raras (ETRs), um grupo de 17 elementos essenciais para alta tecnologia, eletrônica e energias renováveis, abundantes no território brasileiro.
E não nos iludamos: tudo gira em torno da economia. O restante são narrativas políticas que até têm algum fundamento aqui e ali, mas são cuidadosamente potencializadas para justificar uma intervenção, violenta ou não, em regiões com recursos para oferecer grandes potências. Assim é com a China, assim é com a Rússia e, claro, assim é com os Estados Unidos: três potências militares, econômicas e imperialistas em seus respectivos “entornos”.
Lembram-se do motivo da guerra Rússia–Ucrânia? Pois é: ali também há interesse econômico e estratégico. O motivo alegado pela Rússia foi a intenção da Ucrânia de se aproximar da OTAN. Perceba: por trás das guerras, quase sempre há o motivo econômico, territorial ou o controle de algum ponto estratégico para rotas comerciais.
Condenar a tirania venezuelana é um dever moral. Aplaudir automaticamente qualquer ação externa contra ela, sem ponderar motivos e consequências, é um risco político. Entre a indignação justa e a excitação ingênuo existe um espaço de responsabilidade: enxergar a tragédia sem romantizar a geopolítica. (Fotos: Getty Images)
Carlos Antonio Reis é professor e ex-prefeito de Anahy