Votos que não aceitam ir ao caixa no carrinho de compras.
Elon Musk torrou cerca de US$ 474 milhões (R$ 2,6 bilhões) para influenciar as eleições norte-americanas e descobriu, da pior maneira, que nem tudo está à venda. Enquanto os democratas retomavam Câmara e Senado e impunham uma chulapada a Trump, o homem mais rico do mundo colecionava derrotas sem sequer aparecer na cédula.
No Texas, mais de US$ 200 milhões não bastaram para eleger Ken Paxton: James Talarico venceu com 55% dos votos e encerrou um jejum democrata de 38 anos no Senado. Seu bordão, “O Texas não está à venda”, em referência principalmente a Musk, virou um tapa na cara do bilionário. Em Michigan, o dono do X, da Tesla e da SpaceX bancou a ofensiva contra Abdul El-Sayed. Perdeu de novo. E a aposta em reeleger Greg Abbott governador do Texas, em meio à disputa sobre datacenters, também naufragou diante da democrata Gina Hinojosa.
Pior para Musk: a montanha de dinheiro pode ter funcionado como propaganda gratuita para os adversários. Eleitores manifestaram incômodo com a influência de bilionários e o peso dos datacenters. O financiador acabou promovido a cabo eleitoral involuntário dos democratas.
A ressaca pode incluir investigações sobre o Doge, a obtenção indevida de dados federais e os contratos das empresas de Musk com o governo, do tipo pai para filho. Trump já cogitou até perdões preventivos para ele. O que é praticamente um atestado de culpa.
A lição atravessa fronteiras. Big Techs controlam algoritmos, IAs e parte da praça pública digital enquanto despejam fortunas para influenciar quem deveria regulá-las. No Brasil, as controvérsias envolvendo a Meta e a campanhas de Lula mostram que o problema não é exclusividade norte-americana, mas alerta o mundo inteiro.
Musk brincou no X que seus “lasers espaciais” falharam. Talvez voltem em 2028, mais caros e calibrados. Por enquanto, a democracia escapou do carrinho de compras.