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Lula acelera taxa das blusinhas e fim da escala 6×1
Lula acelera taxa das blusinhas e fim da escala 6×1
Por Administrador
Publicado em 26/08/2026 12:11
POLITICA
Lula acelera taxa das blusinhas e fim da escala 6×1

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reúne nesta quarta-feira (26) os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), para tentar destravar duas pautas de forte apelo popular antes da eleição: o fim da cobrança federal sobre compras internacionais de até US$ 50 e a redução da jornada de trabalho associada ao fim da escala 6×1. A operação coloca consumo e trabalho no centro da agenda política do Congresso na reta que antecede a campanha eleitoral.

O encontro será realizado em um almoço reservado no Palácio da Alvorada. A principal urgência é a Medida Provisória (MP) 1.357/2026, que zerou temporariamente o Imposto de Importação sobre remessas internacionais de até US$ 50. O texto precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado até 8 de setembro para continuar produzindo efeitos.

A chamada “taxa das blusinhas” representa uma cobrança de 20% que havia sido criada em 2024 para compras internacionais de até US$ 50. A MP editada pelo governo em maio suspendeu a cobrança, mas deixou a decisão dependente do Congresso. Se a medida perder validade, a tributação poderá voltar a atingir as compras de baixo valor.

O calendário explica a pressa. O Congresso terá uma das últimas janelas de votações concentradas antes do primeiro turno, previsto para 4 de outubro. O esforço concentrado está programado para ocorrer entre 31 de agosto e 4 de setembro, poucos dias antes do prazo final da MP.

A tramitação, porém, ainda enfrenta obstáculos. A comissão mista criada para analisar a MP teve sua instalação adiada por falta de acordo sobre presidente e relator. A própria Câmara registra que a comissão destinada à MP 1.357/2026 não conseguiu avançar inicialmente por falta de consenso político.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já afirmou que o governo pretende se desdobrar para aprovar a medida. A equipe econômica trabalha para garantir que a suspensão da cobrança não termine justamente durante a campanha eleitoral.

A outra frente é a jornada de trabalho

Enquanto a Câmara precisa resolver a MP das compras internacionais, o Senado acelera a tramitação da proposta que reduz a jornada semanal e prevê dois dias de repouso remunerado.

A PEC 221/2019, aprovada pela Câmara e encaminhada ao Senado, está sob relatoria do senador Omar Aziz (PSD-AM) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O texto altera a Constituição para reduzir a duração máxima semanal do trabalho e estabelecer dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial.

Na prática, a discussão é associada ao fim da escala 6×1. A proposta que chegou ao Senado prevê a redução da jornada e a garantia de dois dias de descanso, mantendo os salários. A Câmara aprovou o texto em maio, e Alcolumbre despachou a PEC para a CCJ em 21 de agosto.

O relator Omar Aziz sinalizou que pretende apresentar seu parecer rapidamente. A intenção do governo é aproveitar a estreita janela legislativa antes da eleição para fazer a proposta avançar.

Segundo documentos legislativos, cerca de 37,2 milhões de trabalhadores cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais e a estimativa apresentada durante a discussão da PEC aponta aproximadamente 14 milhões de brasileiros submetidos à escala 6×1. Esses números ajudam a dimensionar o alcance social da proposta, embora a aplicação concreta dependa do texto final aprovado pelo Congresso.

Duas pautas, dois bolsões eleitorais

A combinação das duas agendas é o dado politicamente relevante da reunião desta quarta-feira.

De um lado, Lula tenta preservar uma medida que mexe diretamente com o preço final de compras feitas por consumidores em plataformas internacionais. De outro, o governo trabalha para avançar uma mudança constitucional que interfere na organização da jornada de milhões de trabalhadores.

São duas pautas diferentes, mas com uma característica comum: o eleitor consegue compreender imediatamente o efeito prometido.

No caso das compras internacionais, o conflito é entre a redução da tributação para o consumidor e os interesses de setores produtivos e varejistas que reclamam da concorrência dos produtos importados. A própria Câmara aprovou requerimento para discutir os impactos da MP sobre a indústria têxtil nacional.

No caso da escala 6×1, o conflito está entre a ampliação do tempo de descanso dos trabalhadores e os impactos que a redução da jornada pode provocar sobre empresas, custos e organização da produção. A proposta, portanto, não é apenas uma bandeira trabalhista: também envolve uma disputa econômica sobre produtividade, emprego e custo de mão de obra.

É nesse ponto que a reunião de Lula com Motta e Alcolumbre ganha dimensão eleitoral.

O Planalto não está apenas tentando aprovar projetos isolados. Está buscando organizar uma agenda de entregas com efeito perceptível sobre o cotidiano antes que a campanha presidencial entre em sua fase mais intensa.

Lula precisa do Congresso

A estratégia também revela uma dependência política do Executivo em relação aos comandos das duas Casas.

Lula pode editar uma medida provisória, mas não consegue transformá-la em solução permanente sem os votos do Congresso. No caso da escala 6×1, a dependência é ainda maior porque uma Proposta de Emenda à Constituição exige quórum qualificado e dois turnos de votação em cada Casa.

A reaproximação entre Lula e Alcolumbre ajudou a destravar a pauta trabalhista. Depois de encontros entre os dois, o presidente do Senado encaminhou para as comissões temas considerados prioritários pelo governo, entre eles a PEC da escala 6×1.

A agenda também envolve outros projetos de interesse do Planalto, como a PEC da Segurança Pública. Mas a reunião desta quarta-feira concentra duas medidas com capacidade maior de chegar diretamente ao bolso e à rotina do eleitor.

No caso da “taxa das blusinhas”, o risco para Lula é claro: se a MP caducar e os 20% voltarem durante a campanha, a oposição poderá atribuir ao governo a responsabilidade política pela cobrança, ainda que a decisão final dependa do Congresso.

No caso da escala 6×1, o desafio é transformar a tramitação legislativa em resultado concreto. Aprovar uma PEC no Senado exige uma operação política muito mais complexa do que simplesmente anunciar apoio à proposta.

A corrida contra o calendário eleitoral

O cronograma transforma o Congresso em uma espécie de relógio da campanha.

A MP das blusinhas precisa sobreviver até 8 de setembro. A janela de esforço concentrado está marcada para a semana anterior. Depois disso, deputados e senadores estarão cada vez mais envolvidos nas campanhas estaduais e nacionais.

A PEC da escala 6×1 também enfrenta um calendário apertado. O texto ainda está na CCJ do Senado e precisa passar pelo plenário em dois turnos. Para o governo, quanto mais próximo o Congresso chegar do período eleitoral com a pauta aprovada, maior será o potencial de apresentar a mudança como uma conquista da atual administração.

A oposição, por sua vez, tenta modificar ou retardar o texto. No caso da jornada, há resistência de parlamentares que defendem alternativas negociadas entre empregadores e empregados. O debate também mobiliza entidades empresariais, preocupadas com os custos e os efeitos setoriais da redução da jornada.

A disputa, portanto, não é apenas sobre duas propostas legislativas.

É sobre quem ficará com o crédito político pelas mudanças e quem será responsabilizado caso elas não avancem.

O bolso e o relógio do trabalhador

A operação política de Lula tem uma lógica simples: duas agendas com impacto cotidiano e potencial de comunicação eleitoral.

A primeira mexe no bolso de quem compra produtos estrangeiros de baixo valor.

A segunda mexe no tempo de quem trabalha seis dias para descansar um.

O resultado dependerá dos votos de deputados e senadores, dos acordos construídos pelas presidências da Câmara e do Senado e da capacidade do governo de vencer resistências dentro do próprio Congresso.

Por enquanto, não há aprovação garantida de nenhuma das duas medidas.

O que existe é uma operação política para tentar fazer com que elas avancem na última grande janela legislativa antes da eleição.

E é justamente aí que a reunião de Lula com Hugo Motta e Davi Alcolumbre deixa de ser apenas uma agenda institucional e passa a integrar o calendário da disputa presidencial.

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