O Irã afirmou neste domingo, 19 de julho, que uma nova rodada de ataques dos Estados Unidos atingiu o canteiro da futura usina nuclear de Darkhovin, no sudoeste do país. O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) confirmou a oitava noite consecutiva de bombardeios, mas não incluiu a instalação nuclear na relação oficial dos alvos atingidos. A entrada de uma obra ligada ao programa atômico no conflito, caso a versão iraniana seja confirmada, eleva o risco político da guerra e amplia a pressão sobre o Estreito de Ormuz.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou que Darkhovin estava em uma fase muito inicial de construção e não continha material nuclear quando foi visitada pela última vez pelos inspetores. Isso afasta, neste momento, o risco imediato de liberação radiológica, mas não reduz o peso da escalada: um canteiro nuclear passou a figurar entre as estruturas atingidas durante a ofensiva.
Darkhovin, também chamada de Karun, não é uma usina em operação. O projeto está localizado na província do Khuzistão, próximo ao rio Karun, e ainda não recebeu combustível nuclear. A diferença é central: o ataque relatado pelo Irã não equivale a bombardear um reator ativo, mas representa uma aproximação perigosa entre operações militares e instalações submetidas ao sistema internacional de salvaguardas nucleares.
O Centcom declarou que os ataques da noite de 18 de julho atingiram instalações de vigilância costeira, defesa aérea, capacidades marítimas e depósitos de mísseis e drones. Segundo o comando americano, também foram atacadas forças da Guarda Revolucionária acusadas de participar da ofensiva que matou militares dos Estados Unidos na Jordânia em 17 de julho. Darkhovin não aparece no comunicado oficial americano.
A escalada também aumentou o número de baixas americanas. O Centcom confirmou a morte de dois militares após o ataque iraniano na Jordânia e informou que outra pessoa continuava desaparecida. Restos mortais foram encontrados, mas ainda passavam por identificação. Separadamente, um militar morreu em 18 de julho, no norte do Iraque, durante a detonação controlada de um artefato não explodido proveniente de um drone iraniano abatido. Outro militar sofreu ferimentos considerados leves.
A Associated Press calcula que 17 militares americanos morreram desde o início da guerra. O novo balanço demonstra que a campanha, conduzida principalmente com aviões, mísseis e drones, produz perdas crescentes mesmo longe das linhas tradicionais de combate terrestre.
O Estreito de Ormuz continua sendo o ponto econômico mais sensível do conflito. Apenas três navios de commodities atravessaram a passagem em 16 de julho, menor movimento diário desde maio, segundo dados de navegação compilados pela Reuters. As exportações de petróleo dos países do Golfo chegaram a avançar no começo de julho, mas permaneciam cerca de 32% abaixo do nível registrado antes da guerra, em fevereiro.
A dimensão do risco é global. Antes da interrupção provocada pelo conflito, aproximadamente 20,9 milhões de barris de petróleo e derivados atravessavam Ormuz diariamente. O volume equivalia a cerca de 20% do consumo mundial de combustíveis líquidos e a um quarto do petróleo comercializado por via marítima. A crise de 2026 reduziu a circulação, aumentou a volatilidade das cotações e apertou o mercado internacional de diesel e outros derivados.
Para o Paraná, a exposição mais mensurável está nos fertilizantes. O Porto de Paranaguá recebeu 10,89 milhões de toneladas desses produtos em 2025 e permaneceu como o maior canal de entrada de adubos importados no Brasil. O terminal responde por mais de um quarto das importações nacionais, enquanto o Paraná aparece entre os estados que mais consomem fertilizantes devido ao peso da soja, do milho, do trigo e das cooperativas agroindustriais.
Esses números demonstram exposição logística, mas não autorizam afirmar que um quarto da ureia ou do enxofre utilizados no Paraná venha do Irã ou atravesse Ormuz. Uma divisão precisa exigiria o cruzamento atualizado das importações por produto, país de origem, porto de embarque e rota marítima. O risco imediato está no custo: insegurança naval eleva seguro, frete e tempo de viagem para cargas originadas no Golfo, mesmo quando o fornecedor não é iraniano.
O impacto pode chegar ao Paraná por três caminhos. O primeiro é o diesel, usado no transporte rodoviário da safra e na operação de máquinas agrícolas. O segundo são os fretes marítimos dos fertilizantes. O terceiro é o preço da ureia, do enxofre e de outros insumos negociados em mercados internacionais afetados pela redução da oferta e pelo encarecimento da navegação.
A alegação de ataque a Darkhovin, portanto, não deve ser apresentada como acidente nuclear nem como destruição de uma usina ativa. O fato politicamente novo é outro: a guerra alcançou uma estrutura vinculada ao programa nuclear iraniano, enquanto soldados americanos continuam morrendo e o tráfego em Ormuz volta a encolher. O resultado pode aparecer nos custos do diesel, do plantio e do transporte muito antes de qualquer falta física de produtos no Paraná.