A reunião de representantes de 16 institutos de pesquisa com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, em 14 de julho, levou para dentro da Corte uma guerra por financiamento, metodologia e espaço no mercado eleitoral. Bruno Soller, fundador e cientista político da Real Time Big Data, participou pessoalmente do encontro. Felipe Nunes não compareceu e enviou um representante da Quaest, segundo apuração do Blog do Esmael.
Não convide Bruno Soller e Felipe Nunes para o mesmo ágape.
A rivalidade entre os dois dirigentes ultrapassou a comparação entre resultados eleitorais. Real Time Big Data e Quaest adotam modelos diferentes de financiamento, exposição pública e relacionamento com contratantes privados. A disputa ganhou novo tamanho porque qualquer mudança nas regras do TSE poderá alterar quem tem dinheiro e acesso aos principais canais para divulgar pesquisas durante a eleição de 2026.
Durante a reunião, Soller não citou Felipe Nunes, a Quaest ou o Banco Genial nominalmente. Ao defender a possibilidade de os institutos financiarem os próprios levantamentos, porém, afirmou que o mercado estaria sendo dominado por “facções”, conforme relato obtido pelo Blog do Esmael.
A palavra foi usada no contexto da concentração econômica do setor, não como referência a organizações criminosas.
“Somente as facções poderão publicar pesquisas eleitorais no país”, afirmou Soller, de acordo com a apuração do Blog.
O fundador da Real Time Big Data sustentou que impedir a autocontratação deixaria a publicação de pesquisas dependente de bancos, emissoras, grandes empresas, partidos ou campanhas. Institutos sem acesso a esses financiadores perderiam a capacidade de divulgar levantamentos nacionais por iniciativa própria.
Interlocutores ouvidos pelo Blog interpretaram a declaração como uma cutucada no Banco Genial, contratante frequente das pesquisas nacionais da Quaest. O banco não foi mencionado por Soller, e a interpretação pertence às fontes que acompanharam a discussão.
O conflito não autoriza concluir que a Genial interfira nos questionários, no trabalho de campo, na metodologia ou nos resultados produzidos pela Quaest. A contratação de um levantamento por uma instituição financeira precisa ser informada à Justiça Eleitoral, mas o pagamento, isoladamente, não comprova manipulação ou parcialidade.
Real Time defende pesquisa paga pelo próprio instituto
A Real Time Big Data está entre as empresas que realizam pesquisas com recursos próprios. Em levantamento presidencial divulgado em 1º de junho, o instituto declarou custo de R$ 80 mil e apareceu como contratante da própria sondagem. Foram entrevistados 2 mil eleitores, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
A autocontratação funciona como instrumento de publicidade empresarial. O instituto paga pela coleta, divulga os números e usa a repercussão para consolidar a marca, demonstrar capacidade técnica e conquistar novos clientes.
O modelo não é exclusivo da Real Time Big Data. A legislação eleitoral admite pesquisas pagas pelos próprios institutos, mas exige o registro do valor e da origem dos recursos utilizados. A discussão no TSE envolve justamente o nível de comprovação necessário para garantir que não exista um financiador externo oculto atrás do nome da empresa.
Os críticos da prática sustentam que declarar “recursos próprios” pode ser insuficiente quando não há documentação acessível sobre a origem do dinheiro. Também argumentam que parceiros comerciais ou veículos interessados na divulgação podem participar indiretamente da operação sem aparecer como contratantes.
A suspeita genérica não demonstra irregularidade da Real Time Big Data nem de qualquer outro instituto. Para existir acusação concreta, seria necessário apresentar documentos, pagamentos ou relações comerciais escondidas do sistema de registro da Justiça Eleitoral.
Soller apresentou a outra face do problema. Caso a autocontratação seja proibida, apenas empresas com patrocinadores permanentes conseguiriam manter presença nacional. A consequência seria uma reserva de mercado em favor dos institutos ligados a bancos, grandes grupos de comunicação e contratantes com capacidade para pagar centenas de milhares de reais por rodada.
Esse é o núcleo político da fala sobre “facções”. Soller não acusou nominalmente a Quaest de fraude. Ele atacou um mercado no qual poucos financiadores privados conseguem determinar quais pesquisas terão recursos e distribuição suficientes para dominar o debate nacional.
Genial mantém contratos com Quaest após decisão de Nunes
Felipe Nunes anunciou em 12 de julho, dois dias antes do encontro no TSE, que a Quaest não realizará pesquisas de opinião ou monitoramentos contratados por candidatos e partidos durante a campanha eleitoral de 2026. A decisão foi tomada pelo conselho da empresa, segundo o dirigente.
O anúncio não encerrou contratos com empresas privadas. Nunes informou que a Quaest concentraria seus esforços em mais de 200 pesquisas encomendadas pela Globo e suas afiliadas, além de levantamentos qualitativos e monitoramentos contratados por companhias.
O Banco Genial permanece nessa categoria. Nunes não anunciou o encerramento da parceria nem explicou se a Quaest pretende reduzir a dependência de um contratante que se tornou presença constante na identificação pública dos seus levantamentos nacionais.
A pesquisa presidencial divulgada em 15 de julho foi paga pelo Genial e realizada pela Quaest em parceria de divulgação com o Grupo Globo. O estudo custou R$ 433.255,92, quase cinco vezes e meia o valor declarado pela Real Time Big Data no levantamento nacional de 1º de junho.
Registrada no TSE sob o número BR-07181/2026, a pesquisa Quaest ouviu presencialmente 2.004 eleitores em 120 municípios, entre 10 e 13 de julho. A margem de erro foi de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Lula (PT) marcou 40% no cenário de primeiro turno, contra 28% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). No segundo turno, Lula apareceu com 45% e Flávio Bolsonaro, com 37%.
A diferença de custo não permite concluir qual pesquisa é melhor. Os valores podem variar conforme o tamanho do questionário, a modalidade de coleta, o número de municípios, o período de campo, a estrutura operacional e os serviços adicionais contratados.
A comparação mostra, contudo, o tamanho da barreira econômica para publicar pesquisas nacionais. Poucas empresas, bancos ou grupos de comunicação podem desembolsar mais de R$ 400 mil em uma rodada. A autocontratação permite que institutos assumam o custo, mas abre a disputa sobre transparência e origem efetiva dos recursos.
A Genial também apareceu em outro episódio do mercado financeiro, sem relação comprovada com a metodologia da Quaest. A Justiça de São Paulo determinou o bloqueio de R$ 176 milhões de fundos administrados pela instituição em um desdobramento da Operação Carbono Oculto. O banco afirmou que não era investigado e que sua participação decorria da administração fiduciária das estruturas atingidas.
Esse bloqueio não demonstra interferência da Genial em pesquisas eleitorais, tampouco transforma a Quaest em parte das investigações financeiras. A informação é relevante apenas porque evidencia o peso de instituições do mercado financeiro no financiamento de levantamentos capazes de influenciar campanhas, alianças partidárias, investidores e a cobertura jornalística.
A reunião de 14 de julho também discutiu a proposta de Nunes Marques para criar um “Selo de Acurácia Eleitoral”. O reconhecimento seria concedido aos institutos cujas pesquisas realizadas perto da eleição apresentassem maior proximidade com o resultado das urnas.
A proposta provocou reação de entidades e especialistas. Os críticos argumentam que pesquisa registra a intenção de voto no período da coleta e não constitui previsão do resultado final. Mudanças de opinião, abstenções, acontecimentos de campanha e diferenças entre o eleitorado entrevistado e quem efetivamente comparece às urnas podem alterar o placar.
A Paraná Pesquisas, comandada por Murilo Hidalgo, defende publicamente o selo. Ao Blog do Esmael, Hidalgo afirmou que a empresa não tem compromisso com erros nos levantamentos.
O debate do selo não deve ser confundido com a disputa sobre financiamento, embora os dois temas se cruzem. Uma regra capaz de premiar ou desqualificar institutos afeta reputação, contratos e presença na mídia. Uma restrição à autocontratação interfere diretamente na capacidade financeira de competir por essa reputação.
Bruno Soller compareceu ao TSE para defender o modelo da Real Time Big Data. Felipe Nunes não estava na sala; a Quaest enviou representante. A distância física, porém, não impediu que a rivalidade entre os dois modelos ocupasse o centro do debate.
Soller não provou que a Quaest esteja submetida a uma “facção”. O contrato do Genial também não prova parcialidade ou interferência nos resultados. O fato verificável é que o mercado de pesquisas chegou às eleições de 2026 dividido entre quem depende de grandes contratantes e quem reivindica o direito de financiar a própria entrada no debate público.
O TSE terá de ampliar a transparência sem entregar o setor a um pequeno grupo de bancos, emissoras e empresas. Proibir a autocontratação pode aprofundar a concentração. Mantê-la sem documentação rigorosa pode alimentar dúvidas sobre patrocinadores escondidos.
A guerra entre Real Time Big Data e Quaest é, no fundo, uma disputa sobre quem terá dinheiro, credibilidade e megafone para medir o eleitor brasileiro.