A crise disciplinar da Fifa saiu do caso Balogun e chegou à seleção da Inglaterra.
A Federação Inglesa de Futebol (FA) avalia recorrer à entidade para tentar reverter ou suspender a punição ao zagueiro Jarell Quansah, expulso na vitória inglesa por 3 a 2 sobre o México, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. O defensor recebeu cartão vermelho após revisão do árbitro de vídeo por entrada em Jesús Gallardo.
O problema político e esportivo é simples: depois de a Fifa suspender a aplicação da punição automática a Folarin Balogun, dos Estados Unidos, a Inglaterra passou a perguntar por que o mesmo caminho não poderia ser usado em outro cartão vermelho.
A decisão sobre Balogun ocorreu após Donald Trump afirmar que telefonou ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, para pedir a revisão da punição do atacante norte-americano. A Fifa sustenta que a Comissão Disciplinar atuou de forma independente e usou o artigo 27 do Código Disciplinar, que permite suspender total ou parcialmente a execução de uma medida disciplinar sob período de prova.
A expulsão de Quansah não tem o mesmo enquadramento esportivo descrito para Balogun. No caso inglês, a jogada foi tratada como entrada imprudente ou falta grave. Ainda assim, a brecha aberta pela própria Fifa tornou inevitável a comparação.
O técnico Thomas Tuchel criticou a falta de consistência da entidade após o jogo contra o México. Segundo o Evening Standard e a ESPN, o treinador ironizou a situação ao citar a possibilidade de Harry Kane pedir ajuda a Trump e afirmou que a Inglaterra quer critérios uniformes.
A Fifa tenta separar o cartão vermelho da punição. No caso Balogun, a entidade não apagou a expulsão da súmula, mas suspendeu a execução da sanção automática por período probatório. Esse detalhe jurídico é central: a entidade não disse que o árbitro errou; disse que a pena não precisava ser cumprida naquele momento.
A consequência é explosiva para o mata-mata. Se a Inglaterra recorrer, a Fifa terá de escolher entre manter o precedente de Balogun ou tratá-lo como exceção. A primeira hipótese estimula uma fila de seleções punidas. A segunda reforça a acusação de favorecimento político aos Estados Unidos, país-sede da Copa ao lado de México e Canadá.
A União das Associações Europeias de Futebol (Uefa) já criticou a decisão no caso Balogun, e a Bélgica, adversária dos Estados Unidos nas oitavas, protestou contra a liberação do atacante antes da partida. A Bélgica venceu por 4 a 1, mas o resultado não encerrou o desgaste institucional da Fifa.
Fato confirmado: a FA avalia recurso no caso Quansah. Declaração atribuída: Tuchel cobrou consistência da Fifa. Acusação: críticos dizem que a decisão sobre Balogun abriu favorecimento político. Hipótese política: a Copa pode entrar em uma avalanche de recursos se outras seleções pedirem o mesmo tratamento.
A leitura editorial é que a Fifa não enfrenta apenas uma disputa sobre cartões vermelhos. Enfrenta uma crise de autoridade. Quando uma sanção esportiva muda depois de intervenção pública de um chefe de Estado, cada decisão posterior deixa de ser apenas técnica e passa a carregar suspeita política.
A pergunta que fica para a entidade é direta: a regra vale para todas as seleções ou depende do peso político de quem telefona?