Sergio Moro (PL), senador e pré-candidato ao governo do Paraná, publicou nesta quinta-feira (25) um vídeo para pedir desculpas a Paranaguá depois de confundir o gentílico “parnanguara” com uma referência a indígenas. A gafe abriu uma nova frente de desgaste para o ex-juiz no litoral e virou munição para Gleisi Hoffmann (PT), pré-candidata ao Senado, e Requião Filho (PDT), pré-candidato ao governo.
“Meu caneco”, disse Moro ao iniciar a retratação. Em seguida, atribuiu o erro ao ambiente do evento: “dia corrido, muito barulho. Ouvi uma coisa e respondi outra”.
O problema político não foi apenas fonético. Paranaguá é a cidade-mãe do Paraná, tem o principal porto do estado e carrega um gentílico próprio: parnanguara. Ao não reconhecer a expressão, Moro ofereceu aos adversários um argumento simples e venenoso para a pré-campanha: quem quer governar o Paraná precisa conhecer o Paraná.
No vídeo, Moro tentou conter o dano. Disse ter “todo respeito” por Paranaguá, pelos parnanguaras, pelo Porto e pelo litoral. Também citou propostas para expandir a capacidade portuária, aprofundar o calado, enfrentar a violência, melhorar o Hospital Regional, tratar de questões urbanísticas e fomentar o turismo.
A retratação, no entanto, trouxe outro risco. Ao pedir desculpas pela gafe, Moro repetiu o enquadramento de segurança pública sobre Paranaguá e afirmou que a cidade tem “a mais alta taxa de criminalidade” do Paraná. O ex-juiz culpou quadrilhas que, segundo ele, tentam usar o porto “para o mal”. A fala busca devolver Moro ao terreno em que ele se sente mais confortável, mas mantém a cidade no centro de uma narrativa negativa.
Gleisi Hoffmann explorou a falha com ironia nas redes. A deputada registrou: “Ainda bem que ele queria ser senador por São Paulo, onde a conja dele é deputada, porque de Paraná eles não entendem coisa alguma”. A frase mirou o histórico político recente de Moro, sua circulação fora do estado e a tentativa de se apresentar como alternativa natural ao Palácio Iguaçu.
Requião Filho também entrou na disputa. O pedetista usou o episódio para reforçar a crítica de que Moro faz campanha no Paraná sem enraizamento real nas cidades, nas expressões locais e nos conflitos concretos do estado. Para a oposição, a confusão não foi apenas uma gafe verbal; foi um símbolo de distância política.
O episódio tem peso porque Paranaguá não é uma cidade qualquer no mapa eleitoral. O Porto organiza interesses de exportadores, trabalhadores, caminhoneiros, operadores logísticos, prefeituras do litoral, empresários e governo estadual. Qualquer fala sobre a cidade atravessa economia, segurança, infraestrutura, turismo e identidade regional.
Moro tentou encerrar a crise com “mil perdões”. A pré-campanha, porém, dificilmente deixará a frase morrer. Em eleição, erro simples vira apelido, meme, corte de vídeo e pergunta incômoda em cada visita ao litoral. Em Paranaguá, onde apelido circula quase como documento paralelo, ganha um queijo quem adivinhar qual será o do pré-candidato do PL.
O conflito agora é menos sobre uma palavra e mais sobre pertencimento. Para Moro, a missão será provar que conhece o Paraná além do discurso nacional da Lava Jato e da segurança pública. Para Gleisi e Requião Filho, a gafe oferece uma linha de ataque pronta: o ex-juiz quer governar um estado cujo vocabulário político, histórico e popular ainda parece escapar em público.
A disputa de 2026 no Paraná ganhou, com “meu caneco”, uma cena curta e útil para redes sociais. Moro pediu desculpa. Seus adversários ganharam munição.