O governador do Paraná Ratinho Junior (PSD) chega à sessão desta segunda-feira (6) menor do que imaginava ao fim da janela partidária. O PSD até ampliou a bancada, mas o Palácio Iguaçu perdeu o monopólio da sucessão dentro da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), abriu flancos à direita com o avanço do Partido Liberal (PL) de Sergio Moro e viu o Republicanos de Alexandre Curi ganhar musculatura própria. [Abaixo, acompanhe a sessão da ALEP ao vivo a partir das 14h30.]
O retrato da Casa mudou de forma brusca entre a reta final da janela e a sexta-feira (3). O PSD passou a 19 deputados, o PL saltou de cinco para 12, o Republicanos foi de dois para cinco, e o União Brasil perdeu os sete parlamentares que tinha na ALEP. O PT preservou seis cadeiras e se manteve como uma das bancadas mais estáveis nesse rearranjo.
A ALEP desta segunda-feira não é a mesma da semana passada.
Essa conta interessa porque, na Assembleia, bastam 18 assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Em outras palavras, o novo arranjo deixa temas incômodos bem mais próximos do plenário.
Os temas são espinhosos. Estão no radar preliminar da ALEP a CPI do Tayayá, a CPI da Ligga Telecom, a CPI do Olho Vivo, a CPI do PoupaTempo e a CPI da Sanepar.
A mais simbólica, no momento, é a do Tayayá. Ela resume o novo humor da Casa: uma ALEP menos sujeita ao comando vertical do Executivo e mais aberta a testar os limites políticos do governador em fim de ciclo.
A CPI do Tayayá interessaria porque ela encostaria o Palácio Iguaçu num caso que mistura licença estadual, disputa ambiental, conexões empresariais explosivas e desgaste direto sobre o entorno político de Ratinho, justamente quando o governador já perdeu parte do controle da própria base na ALEP.
Nos bastidores, o estrago para Ratinho não está só na planilha de filiados. Alexandre Curi deixou o PSD e oficializou a ida ao Republicanos na quarta-feira (1º), com lançamento explícito ao governo. Antes dele, Rafael Greca já havia deixado o PSD rumo ao MDB. Na sexta-feira (3), Ney Leprevost também assinou com o Republicanos, e Márcio Pacheco entrou no mesmo movimento.
Do outro lado, o PL de Moro e de Filipe Barros transformou a janela em operação de expansão. A legenda atraiu Mauro Moraes, Delegado Tito Barichello e Flávia Francischini, vindos do União Brasil, além de Denian Couto, Matheus Vermelho, Paulo Gomes e Samuel Dantas, chegando a 12 deputados estaduais. Foi a arrancada mais vistosa da janela no Paraná.
Ratinho, portanto, sai da janela com um paradoxo no colo. Conserva uma máquina pesada e uma bancada numerosa no PSD, mas perdeu a condição de ditar sozinho o roteiro de 2026. Curi ganhou voo próprio, Greca foi cuidar do próprio projeto, o PL virou polo independente na direita e até partidos que orbitavam o governo passaram a negociar em outro tom.
É nesse ponto que a ALEP entra em terreno mais sensível para o governo. Segundo a apuração já publicada pelo Blog do Esmael, a nova correlação de forças pode empurrar o Palácio Iguaçu para a rota de comissões parlamentares de inquérito e outras frentes de investigação. Estão no radar político da Casa, com intensidades diferentes, temas como Tayayá, Ligga Telecom, Olho Vivo, PoupaTempo e Sanepar. A CPI do Tayayá virou o símbolo desse novo humor porque toca licença ambiental, disputa empresarial e desgaste no entorno do governo.
A leitura que circula no Centro Cívico é simples. O problema de Ratinho deixou de ser apenas escolher um sucessor. Agora ele precisa impedir que a própria sucessão desorganize sua base e forneça combustível institucional para adversários, antigos aliados e dissidentes. Quando a Assembleia percebe fraqueza no comando político, o plenário deixa de funcionar só como base de sustentação e volta a operar como arena de pressão.
A sessão plenária desta segunda, a primeira após o troca-troca, está marcada para 14h30 e terá transmissão ao vivo pelo Blog do Esmael. É nessa vitrine que o novo tamanho de Ratinho começará a ser medido em público, no discurso, nos gestos e na disposição de cada bancada para testar a margem real do governo.
Ratinho ainda tem peso institucional, orçamento, estrutura e capilaridade. O que a janela partidária retirou foi outra coisa: a autoridade automática para enquadrar a sucessão e manter a ALEP em silêncio. A partir de segunda-feira (6), esse poder passará a ser testado voto a voto.