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Só o eleitor tem poder para mudar a fotografia do Congresso Nacional em 2026
Só o eleitor tem poder para mudar a fotografia do Congresso Nacional em 2026
Por Administrador
Publicado em 27/03/2026 09:06 • Atualizado 27/03/2026 09:07
POLITICA
Só o eleitor tem poder para mudar a fotografia do Congresso Nacional em 2026

As eleições deste ano recolocam no centro do debate uma pergunta decisiva para a democracia brasileira: é possível alterar a composição da Câmara dos Deputados e do Senado a ponto de modificar prioridades, agendas e a própria governabilidade do país?

Em meio a índices persistentes de baixa popularidade do Congresso Nacional, cresce a percepção de que o Parlamento tem atuado prioritariamente em favor de lobbies organizados e de interesses setoriais e financeiros via bancadas da Bala, da Bíblia e do Agronegócio, enquanto pautas de interesse popular permanecem em segundo plano.

A disputa de 2026, portanto, não se resume ao Palácio do Planalto. Ela envolve diretamente a correlação de forças que dará sustentação, ou imporá bloqueios, ao próximo governo.

Para Marcos Verlaine, analista político do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a avaliação negativa do Congresso decorre da atuação majoritária de setores conservadores e de extrema direita.

“A sociedade brasileira observa o Congresso negativamente em função das práticas da maioria de direita e extrema direita, dos chamados centrões bolsonaristas, que querem se blindar e têm enorme dificuldade de debater temas que resolvam concretamente os problemas da sociedade”, afirma.

Segundo ele, há resistência a pautas estruturais, como a redução da jornada de trabalho e o enfrentamento da escala 6×1, além de entraves em debates sobre segurança pública e melhoria das relações de trabalho. “O povo não aguenta mais trabalhar nessas condições. Mas a maioria do Congresso tem dificuldade de compreender isso porque são mentalidades conservadoras.”

Verlaine aponta, ainda, uma desconexão ideológica entre a visão predominante no Parlamento e as demandas concretas da população. “Há uma espécie de bloqueio às matérias de interesse dos trabalhadores.”

Congresso atual

Câmara, hoje, é marcada pela expressiva dimensão das bancadas temáticas conservadoras. De acordo com o site da Frente Parlamentar da Agropecuária, são 295  deputados e 52 senadores, mais da metade da Casa.

A Frente Parlamentar da Segurança Pública soma em torno de 240 parlamentares; já a Bancada da Bala possui 44 membros, enquanto a Frente Parlamentar Evangélica (Bancada da Bíblia) conta com 210 integrantes.

Considerando que a Câmara tem 513 cadeiras, esses números revelam a capacidade dessas frentes de formar maiorias com relativa facilidade, especialmente diante de que muitos deputados participam simultaneamente de duas ou até das três bancadas, ampliando o poder de articulação suprapartidária, influenciando a pauta do plenário, a composição de comissões estratégicas e consolidando uma maioria temática que transcende as siglas partidárias e sustenta o peso das agendas conservadoras no Congresso.

Rio Grande do Sul: impacto regional e disputa aberta

No Rio Grande do Sul, a eleição para a Câmara e o Senado terá impacto direto na composição do Congresso. O estado mantém 31 cadeiras na Câmara dos Deputados e renovará parte de sua representação no Senado, o que lhe confere peso relevante na definição do perfil do Legislativo nacional.

Com um eleitorado superior a 8 milhões de pessoas, o RS reúne realidades distintas: grandes centros urbanos, regiões industriais e vastas áreas rurais. Essa diversidade produz disputas internas, as quais vão do embate entre agronegócio exportador e agricultura familiar até o debate ambiental intensificado após as cheias recentes.

A depender do resultado, o estado pode reforçar blocos alinhados à agenda ruralista e conservadora ou ampliar a presença de parlamentares comprometidos com pautas sociais, ambientais e trabalhistas. O impacto não é apenas simbólico, pois 31 votos na Câmara podem ser decisivos em votações apertadas.

Em reportagem do Extra Classe publicada em novembro de 2025, intitulada Quem são os gaúchos que votam contra o povo, a favor dos ricos, contra a natureza e pela impunidade, 21 deputados gaúchos dos 31 da atual legislatura figuram entre os que, sistematicamente, têm votado contra pautas de interesse da sociedade como um todo em favor de uma temática conservadora e 11 com pautas populares e progressistas.

São eles: Afonso Hamm (PP); Alceu Moreira (MDB); Any Ortiz (Cidadania); Bibo Nunes (PL); Covatti Filho (PP); Daniel Trzeciak (PSDB); Danrlei de Deus (PSD); Franciane Bayer (Republicanos); Giovani Cherini (PL); Heitor Schuch (PSB); Lucas Redecker (PSDB); Luiz Carlos Busato (União); Marcel van Hattem (Novo); Marcelo Moraes (PL); Maurício Marcon (Podemos); Osmar Terra (PL); Pedro Westphalen (PP); Pompeo de Mattos (PDT); Ronaldo Nogueira (Republicanos); Sanderson (PL); Zucco (PL).

Em contraponto, parlamentares gaúchos mais comprometidos com pautas populares são minoria: Alexandre Lindenmeyer (PT); Bohn Gass (PT); Carlos Gomes (Republicanos); Daiana Santos (PCdoB); Denise Pessôa (PT); Fernanda Melchionna (PSOL); Luciano Azevedo (PSD); Márcio Biolchi (MDB); Marcon (PT); Maria do Rosário (PT); Paulo Pimenta (PT).

A força da Bancada Ruralista

Entre as frentes mais organizadas do Congresso, está a Bancada Ruralista, institucionalizada principalmente pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Trata-se de um dos grupos mais articulados e influentes do Parlamento.

O coordenador do Diap, Neuriberg Dias, destaca que o Congresso brasileiro vem apresentando um perfil majoritariamente conservador e fortemente alinhado a interesses empresariais organizados. Conforme ele, frentes parlamentares estruturadas, como a ruralista, atuam com elevada coesão e forte poder de pressão, influenciando não apenas votações específicas, mas também a definição da agenda legislativa e a ocupação de relatorias estratégicas.

Levantamentos do observatório jornalístico De Olho nos Ruralistas, coordenado por Alceu Luís Castilho, apontam que a bancada ampliou sua capacidade de influência nas últimas legislaturas, ocupando espaços-chave e fortalecendo alianças com outros setores conservadores.

Nos últimos anos, sua atuação extrapolou o debate agrícola, incidindo sobre temas como demarcação de terras indígenas, uso de agrotóxicos, licenciamento ambiental e política tributária.

O peso do dinheiro, das emendas e a dificuldade de renovação

Outro elemento central é a estrutura institucional que favorece quem já está no mandato. Dias considera que o fator mais determinante para a baixa renovação do Congresso é normativo e partidário.

Os partidos detêm o controle sobre as candidaturas, a distribuição do Fundo Eleitoral e o tempo de rádio e TV. Isso cria um filtro prévio que dificulta o surgimento de novas lideranças competitivas, especialmente nas eleições proporcionais.

Além disso, as emendas parlamentares transformaram-se, na prática, em um mecanismo de campanha permanente. Ao direcionar recursos para municípios específicos, parlamentares fortalecem alianças com prefeitos e lideranças locais, consolidando bases eleitorais.

Esse modelo estimula o voto pragmático: o eleitor tende a priorizar quem “traz recursos” para sua cidade, independentemente do posicionamento em votações nacionais. A crítica é dirigida à instituição “Congresso”, mas raramente se converte em punição direta ao parlamentar da base local.

Neuriberg chama a atenção para um dado preocupante: a tendência de aumento das recandidaturas, acima de 90%, combinada com o crescimento da abstenção e do voto branco e nulo nas eleições proporcionais. Historicamente, quanto menor a participação, menor será a renovação.

Ele também destaca que, desde o governo Dilma Rousseff, o Congresso ampliou seu poder institucional, especialmente por meio do controle do orçamento e das emendas impositivas, limitando a capacidade do Executivo. O modelo passou a ser descrito por analistas como uma espécie de “parlamentarismo informal”, no qual a governabilidade depende cada vez mais da negociação com o comando da Câmara e do Senado.

Por que a insatisfação não vira mudança?

A grande contradição do sistema político brasileiro é esta: a insatisfação com o Congresso é alta, mas a renovação é baixa. Conforme Dias, isso ocorre por uma combinação de fatores, como o controle partidário das candidaturas e dos recursos; vantagem estrutural de quem já está no mandato; o uso das emendas como instrumento eleitoral; voto baseado em benefícios locais, e a crescente abstenção nas eleições.

A crítica à “política” não se traduz automaticamente em escolha por novos nomes, porque o sistema cria barreiras institucionais e materiais à competição real. “O eleitor ataca a instituição, mas mantém vínculos pessoais, sociais e econômicos com o parlamentar da sua base”, esclarece.

Para o coordenador do Diap, a resposta para reverter esse fenômeno passa por três frentes principais: reforma do sistema partidário e eleitoral, transparência e controle social sobre emendas e votações, e mobilização social permanente.

Sem pressão social organizada, a tendência é de perpetuação do modelo atual. “O sistema político precisa passar por reforma partidária e eleitoral. Essa é a mãe de todas as reformas”, defende Neuriberg.

A eleição de 2026 pode até mudar o presidente da República. Porém, se a estrutura de representação permanecer intacta, o Congresso tende a seguir com perfil semelhante ao das últimas legislaturas. A nova fotografia do Parlamento depende do voto, mas também das regras do jogo e da capacidade da sociedade de disputar esse jogo.

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