O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) volta ao radar eleitoral do país nesta quinta-feira (5), quando o Datafolha divulga nova pesquisa nacional em meio à explosão do escândalo envolvendo o Banco Master e seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro. O levantamento chega sob o impacto de uma sequência de revelações que misturam sistema financeiro, bastidores do Congresso e investigações policiais, criando um ambiente político carregado para a divulgação dos números.
O estudo do Datafolha foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com 2.004 entrevistas realizadas entre terça-feira (3) e hoje (5), margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O questionário mede intenção de voto espontânea e estimulada, cenários de segundo turno, avaliação do governo Lula e percepção sobre economia, instituições e temas sociais como a jornada de trabalho.
A fotografia eleitoral, no entanto, não nasce em laboratório. Ela chega no momento em que o caso Banco Master domina o noticiário político, econômico e policial do país.
A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro pela Polícia Federal (PF), na quarta-feira (4), na nova fase da Operação Compliance Zero, abriu uma caixa de bastidores que atravessa o sistema financeiro, o Congresso Nacional e setores do poder institucional. A investigação aponta suspeitas de fraude financeira bilionária, lavagem de dinheiro e irregularidades na emissão de títulos de crédito.
Outro episódio grave surgiu no rastro da operação. Um dos presos na operação da PF, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido pelo apelido de “Sicário”, morreu após tentar se enforcar na cela da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.
Mourão era investigado por suspeita de integrar uma suposta milícia privada de Vorcaro. De acordo com a investigação citada no despacho do ministro André Mendonça (STF), o grupo discutia ações para intimidar desafetos do banqueiro, incluindo planos de simular um assalto para agredir o jornalista Lauro Jardim, de O Globo.
Ao mesmo tempo, mensagens reveladas pela imprensa ampliaram o alcance político do escândalo. Em conversas atribuídas ao próprio Vorcaro, o empresário trata o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro (PL), como “grande amigo” e celebra uma emenda parlamentar que teria beneficiado o banco. O senador afirmou, em nota, que nunca manteve conduta irregular relacionada à instituição.
O presidente nacional do Progressistas e uma das principais lideranças do centrão no Congresso, apresentou proposta de emenda à Constituição (PEC) que amplia o limite de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por depositante. O fundo é o mecanismo que protege correntistas em caso de quebra de instituições financeiras.
Outros relatos também surgiram no rastro da investigação. Vorcaro mencionou em mensagens encontros com figuras influentes da política nacional, além de jantares com parlamentares e oferta de transporte em helicóptero a dirigentes partidários em eventos privados. Em outro momento, o próprio banqueiro teria chamado o ex-presidente Jair Bolsonaro de “idiota” ao comentar publicações nas redes sociais sobre o banco.
De acordo com reportagem do jornal Folha de S.Paulo, o senador Ciro Nogueira e o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, teriam utilizado um helicóptero do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, durante a corrida de Fórmula 1 em Interlagos, em 2024. Ainda segundo a reportagem, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também teria voado em aeronave ligada ao banqueiro no segundo turno da campanha presidencial de 2022.
As revelações ampliam a dimensão política do caso, que deixa de ser apenas um escândalo financeiro e passa a atingir o coração do sistema de poder em Brasília.
O impacto institucional também chegou ao Banco Central (BC), onde relatos de bastidores indicam clima de preocupação após indícios de envolvimento de servidores no episódio. A autoridade monetária já havia decretado a liquidação extrajudicial do Banco Master, decisão que colocou o conglomerado no centro de uma crise de credibilidade no sistema financeiro.
Para a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, a operação da Polícia Federal expõe definitivamente a corrupção do Banco Central de Jair Bolsonaro e Roberto Campos Neto no escândalo Master. “Por que será que Campos Neto não agiu contra as fraudes de Vorcaro enquanto era presidente do BC?”, questiona ela. Campos Neto presidiu o BC entre 2019 e 2025.
Outro desdobramento sensível apareceu no campo da previdência. Investigações identificaram indícios de um novo esquema de crédito consignado irregular ligado ao Master envolvendo aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ampliando o alcance social do caso.
No meio dessa tempestade, o Datafolha chega como termômetro político de um país tensionado.
A direita tenta explorar o ambiente de crise como forma de desgastar o governo Lula e contaminar o debate eleitoral de 2026. Parte da oposição aposta na narrativa de que sucessivos escândalos financeiros, somados a disputas no Congresso e investigações paralelas, poderiam corroer a base social do presidente.
Nos bastidores do poder, contudo, há outra leitura. O caso Master expõe relações que atravessam vários campos políticos, incluindo figuras próximas ao bolsonarismo e ao centrão, o que dificulta transformar o episódio em munição unilateral contra o Palácio do Planalto.
Por isso, o verdadeiro impacto político da pesquisa do Datafolha talvez não esteja apenas em quem aparece na frente, mas em dois indicadores mais profundos: rejeição e cenário de segundo turno.
Esses dados costumam revelar o enredo real da disputa presidencial antes mesmo da campanha começar.
Se Lula mantiver vantagem ou estabilidade nas intenções de voto, mesmo sob a avalanche de crises e disputas narrativas, o resultado reforça a percepção de que o presidente continua sendo o principal polo eleitoral do país.
Se houver queda relevante, a oposição tentará transformar o episódio em argumento de desgaste estrutural.
Portanto, a pesquisa que sai sob o signo do caso Master não é apenas mais um levantamento eleitoral. Ela funciona como um teste de resistência política em meio à colisão entre sistema financeiro, investigação criminal e disputa pelo poder.
No fim das contas, é o eleitor quem dará a última palavra, não os bastidores de Brasília nem o barulho do mercado.