O governador Ratinho Júnior (PSD) colocou na mesa a venda da Celepar por preço mínimo de R$ 1,3 bilhão, e a oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) reagiu chamando de “liquidação”, com alerta direto: o pacote envolve dados sensíveis do cidadão e contratos já assinados que somam cerca de R$ 2,2 bilhões, segundo levantamento citado pelo deputado Arilson Chiorato (PT).
O que está em jogo no leilão
O Governo do Paraná publicou o edital de desestatização e marcou o leilão para 17 de março de 2026, na B3, em São Paulo, prevendo a alienação, em lote único, das ações do Estado na Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar).
Na prática, não se trata só de “trocar o dono” de uma empresa. A Celepar é o motor que sustenta sistemas de saúde, educação, segurança pública, trânsito e benefícios. Quando esse motor é terceirizado para uma lógica privada, a pergunta muda de lugar: quem responde quando o serviço falha, atrasa ou encarece?
“Liquidação” e a conta que não fecha
Em discurso na tribuna da Alep, Arilson, líder da oposição e presidente do Partido dos Trabalhadores (PT-PR), atacou o valor mínimo do edital e sustentou que o comprador levaria junto uma carteira de contratos vigentes que já supera, e muito, o preço de venda, além de estrutura, tecnologia e propriedade intelectual construída com dinheiro público.
O argumento ganhou uma alegoria de fácil compreensão: dividir R$ 1,3 bilhão por cerca de 11,8 milhões de paranaenses dá algo na faixa de R$ 110 por pessoa. Na leitura do deputado, o governo está precificando o CPF, o prontuário médico, a vida escolar, a rotina de segurança e o funcionamento do Estado como se fossem troco.
Contratos de R$ 2,2 bilhões entram no “combo”
O ponto mais explosivo politicamente é o “combo” de contratos. Servidores da Celepar levantaram valores da ordem de R$ 2,2 bilhões, distribuídos em dezenas de contratos, podem ser transferidos na prática para a iniciativa privada com a privatização, com vigências que avançam no tempo.
Esse detalhe muda o enquadramento do debate: não é só “quanto vale a Celepar”, mas também quem passa a controlar a infraestrutura e os serviços digitais em contratos já amarrados, pagos com orçamento público.
Dados do povo e risco real na segurança pública
Arilson também apontou o que chama de fragilidade na separação de sistemas sensíveis, especialmente na segurança pública, e cobrou que soberania digital não se resolve “no papel”. A crítica mira o risco de exposição de bases, rotinas e informações operacionais, num cenário em que parte do ecossistema ainda compartilharia estruturas.
E existe histórico de disputa institucional: o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) já ratificou, em outro momento do processo, cautelar suspendendo a privatização da Celepar. A novela inclui idas e vindas no controle e no Judiciário, com decisões que destravam e outras que travam o caminho.
Mobilização: plenária chama sociedade para o debate
A reação extrapola o plenário. Movimentos sociais convocaram plenária em defesa da Celepar pública na quinta-feira (12), às 19h, no APP Sindicato, na Av. Iguaçu, 880, em Curitiba, como tentativa de ampliar pressão e organizar resistência ao leilão.
Privatização no Paraná vira comparação inevitável
Ao lembrar a experiência da energia no estado, a oposição tenta colar na Celepar um alerta conhecido do cidadão: privatiza, piora o atendimento, some a responsabilidade política do balcão. É uma comparação que pega porque toca no cotidiano, e porque dados não são mercadoria comum, são poder.
Soberania digital não se vende no atacado
A venda da Celepar, do jeito que foi desenhada, parece menos uma “eficiência” e mais uma aposta arriscada: entrega contratos bilionários e a espinha dorsal digital do Estado, enquanto empurra para o futuro a conta de reconstruir controle, segurança e infraestrutura se algo der errado. Quem paga, como sempre, é o povo.