
Um culto comum de domingo na Assembleia de Deus. A vitória em Cristo se transformou-se num dos momentos mais chocantes e impactantes da história religiosa brasileira. O que começou por ser uma pregação habitual do pastor Silas Malafaia foi brutalmente interrompido quando um fiel não identificado subiu ao púlpito e começou a acusá-lo publicamente de utilizar o dinheiro dos fiéis para campanhas políticas da direita e apoiar golpistas.
A discussão que se seguiu foi áspera, raivosa, quase desrespeitosa, com ambos a elevar vozes de uma forma que deixou os milhares de presentes de boca aberta. Mas o que ninguém esperava era o desfecho. O que vai assistir agora nunca deveria ter acontecido dentro de uma igreja, mas aconteceu e mudou para sempre a forma como aquele congregação vê fé e política.
A Assembleia de Deus. Vitória em Cristo, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, estava com aproximadamente 4.000 pessoas naquele domingo de manhã. O templo, com capacidade para 6000, tinha a parte inferior lotada, enquanto a superior apresentava alguns espaços vazios. O pastor Silas Malafaia subia ao púlpito vestindo o seu característico fato escuro e gravata.
A banda tocava um louvor animado e a congregação cantava com entusiasmo. Bom dia, igreja de Jesus Cristo. Bom dia, meu povo. Glória a Deus. Hoje vamos falar de fidelização, sobre permanecer firme na palavra, mesmo quando o mundo inteiro está contra si. Mesmo quando te perseguem, te calunia, te difam. A palavra de Deus não muda. Amén.
Começou Malafaia com a sua voz potente e característica. Amém, respondeu a congregação em unísono. Eu disse: “A palavra de Deus não muda. O mundo muda, os governos mudam, as leis dos homens mudam, mas a palavra de Deus é eterna e imutável.” Continuou Malafaia a caminhar pelo palco. Foi nesse momento que algo completamente inesperado aconteceu.
Um homem levantou-se da décima fila e começou a caminhar determinadamente em direção ao palco. Os seguranças da igreja se aperceberam do movimento, mas antes que o pudessem intercetar, ele já havia subido os degraus do púlpito. Malafaia parou de falar surpreendido. Irmão, o senhor precisa de oração? pode esperar o final do culto, mas o homem que aparentava ter entre os 40 e os 50 anos, vestia uma camisa social e calças de ganga, interrompeu com voz alta e firme.
Não, senhor pastor, não preciso esperar. Eu preciso de falar agora e o senhor vai ouvir-me. A congregação ficou em silêncio absoluto. Malafaia ficou visivelmente irritado. Irmão, quem é o senhor? Qual o seu nome? O meu nome não importa. O que importa é a verdade que precisa de ser dita aqui”, disse o homem, posicionando-se ao lado de Malafaia no púlpito.
Os seguranças aproximaram-se, mas Malafaia fez sinal para que parassem. “Está bem, fala o que o Senhor tem para dizer?”. O homem virou-se para a congregação e começou a falar em voz alta, a tremer de raiva. Vocês todos precisam de saber a verdade. Esse homem aqui que vocês chamam pastor, que respeitam, que obedecem, está a usar o dinheiro de vocês para fazer campanha política da direita.
Murmúrios percorreram a igreja. Malafaia ficou vermelho de raiva. Como é que é? O senhor ouviu muito bem, senhor pastor. O senhor leva o dízimo, as ofertas, o suor do trabalho desta gente humilde e usa para apoiar os políticos, para apoiar os golpistas, para tentar derrubar a democracia, gritou o homem. Malafaia explodiu.

Olha aqui, seja lá quem for, vai sair agora desta igreja antes que eu manda-te tirar a força. Tire-me então, mas antes todos aqui vão ouvir o que tenho para dizer. Rebateu o homem, voltando-se novamente para a congregação. Vocês acham que o vosso dinheiro está sendo usado para a obra de Deus? Não está.
está a ser usado para campanha política, para apoiar quem tentou dar golpe de Estado, para apoiar quem atacou a democracia. Malafaia agarrou o microfone com força. Você está a mentir. Você está a difamar. Isso é coisa do diabo. Coisa do diabo é usar a palavra de Deus como se fosse um brinquedo gritou o homem.
O Senhor sobe aqui todos os domingos e enche a cabeça a esta gente de lixo, de ódio político, de divisão. Isto não é evangelho. A congregação estava dividida. Alguns gritavam para o homem sair. Outros pareciam chocados, mas curiosos. Alguns até concordavam com a cabeça. Malafaia estava furioso como nunca. Lixo, estás a chamar-me de lixeiro? Está a dizer que a palavra de Deus que eu prego é lixo? Não, a palavra de Deus não é lixo, mas o Senhor distorce-a.
O Senhor torce-a para servir os seus interesses políticos. Isso sim é lixo! Respondeu o homem. Seus interesses? Que interesses? Fala lá, me acusa claramente, desafiou Malafa. Interesse de poder, interesse de influência. O Senhor quer mandar neste país, quer controlar os políticos e utiliza esta igreja, usa este povo para conseguir isso. Acusou o homem.
Malafaia deu um passo ameaçador em direção ao homem. Olha aqui, vou-te dizer uma coisa. Quem está a usar a palavra de Deus como brinquedo não sou eu. Sou eu quem prego a palavra imutável. Quem muda de opinião a toda a hora são vocês, esquerdistas. esquerdista. “O senhor está a chamar-me de esquerdista?”, perguntou o homem.
“Claro que estou, só pode ser. Anda cá interromper um culto, fazer acusação sem prova, criar confusão. Isto é tática de esquerdista”, disse Malafaia. “Eu não sou esquerdista. Eu sou membro dessa igreja há 15 anos. 15 anos que eu frequento aqui. E estou cansado de ver o Senhor transformar esta igreja. Em palanque político! Gritou o homem.
Palanque político? Eu estou a pregar a palavra. Estou a defender valores cristãos. Família, vida, liberdade. Se isto é política, então Jesus também fazia política. Rebateu Malafaia. Jesus nunca apoiou o golpista. Jesus nunca pediu aos seus discípulos para tentarem derrubar governo. Jesus pregava o amor, paz, justiça.
O Senhor prega o ódio, divisão, intolerância, acusou o homem. A discussão estava completamente fora de controle. Ambos gritavam, gesticulavam violentamente, se interrompiam constantemente. A congregação não sabia se deveria intervir ou apenas assistir. Ódio: “Divisão. Quem está a trazer divisão aqui é você.
” Interrompendo um culto, desrespeitando a casa de Deus. Desrespeitando um ungido de Deus, gritou Malafaia. Ungido de Deus. Ungido de Deus não mente. Ungido de Deus não manipula. Ungido de Deus não usa o sagrado para fins profanos rebateu o homem. Profanos. Defender a família é profano. Defender a vida é profano.
Defender a liberdade religiosa é profano? Questionou Malafaia. Não, mas apoiar quem tentou dar um golpe é apoiar quem atacou as instituições democráticas. É apoiar quem espalhou mentira e ódio. É, disse o homem. Malafaia estava com as veias do pescoço saltadas. Golpe? Que golpe? Não houve golpe nenhum. O que houve foi uma eleição fraudada, urnas manipuladas, resultado forjado.
O senhor está a ver? Está a ver o que eu estou a dizer? O senhor continua a espalhar mentiras, dizendo que houve fraude quando não houve. Todos os tribunais já confirmaram que não houve fraude, mas o senhor continua mentindo. Acusou o homem. Tribunais. Aqueles tribunais comandados por quem? Por gente honesta? Por gente imparcial? Não, por gente que está vendida para a esquerda disse Malafaia.
Então, toda a gente está errada menos o Senhor. Todos os juízes estão errados. Todos os ministros estão errados. O mundo inteiro que reconheceu o resultado eleitoral está errado. Só o Senhor tem razão? Questionou o homem. Não é uma questão de estar certo ou errado. É uma questão de ter discernimento espiritual.
É uma questão de não se deixar enganar pelas trevas, argumentou Malafaia. Trevas. O Senhor fala das trevas enquanto está na escuridão. O Senhor fala de luz enquanto espalha sombras. O Senhor fala de Deus enquanto serve mamon”, disse o homem. A acusação de servir Mamon, referência bíblica ao Deus do dinheiro, tocou num nervo sensível em Malafaia.
Eu sirvo Mamon. Eu que dediquei a minha vida inteira ao evangelho. Eu que construí esta igreja de raiz. Eu que já Levei a palavra a milhões de pessoas. Sim, o Senhor serve mamon porque o Senhor ama o poder, ama a influência, ama estar próximo dos poderosos. Isso não é servir a Deus, isto é servir o ego, disse o homem.
Malafaia respirou fundo várias vezes. Quando falou novamente, a sua voz ainda estava alta, mas havia uma mudança subtil no tom. Olha, sejas quem fores. Você sobe aqui, interrompe o meu culto, acusa-me das piores coisas. Mas sabe uma coisa? Está tão cego de ódio que nem percebe a contradição do que está falando.
Que contradição? Perguntou o homem também, baixando ligeiramente o tom. Acusa-me de pregar ódio, mas quem está cheio de ódio aqui é você. Acusa-me de divisão, mas quem está a dividir essa igreja é você. Você me acusa de usar a palavra como brinquedo, mas quem está a desrespeitar a casa de Deus és tu”, disse Malafaia. O homem ficou em silêncio durante alguns segundos.
Quando falou, a sua voz estava mais baixa, mas ainda firme. O senhor tem razão. Eu estou cheio de raiva. Estou cheio de ódio. Mas sabe porquê? Porque eu vejo o Senhor levando estas pessoas por um caminho errado? Porque vejo o Senhor misturando a política com a fé de uma forma perigosa? Malafaia também baixou o tom.
E não acha que eu acredito genuinamente que estou a fazer o certo? Que estou a defender valores que considero importantes? Que estou protegendo a igreja de ameaças reais? Eu não duvido que o Senhor acredite. Mas acreditar não torna algo verdadeiro. O Senhor pode estar sinceramente errado disse o homem.
E pode estar sinceramente errado também, contrapôs Malafaia, mas sem agressividade. O homem olhou para a congregação silenciosa. Já viram o que aconteceu aqui? Viram como é que a raiva tomou conta? Como a discussão ficou feia? Isso é o que está a acontecer no Brasil inteiro. Irmãos contra irmãos. Amigos contra amigos, famílias divididas, tudo por causa da política.
Malafaia concordou com a cabeça. Nisso tem razão. A política tem dividido famílias, igrejas, toda a nação. E o senhor não percebe que faz parte, que contribui para esta divisão? perguntou o homem. Agora sem agressividade. Malafaia pensou antes de responder: “Talvez sim. Talvez tenha sido muito duro em algumas coisas.
Talvez me tenha exaltado demais. Mas também não percebe que interromper um culto e me atacar publicamente também contribui para a divisão?” Percebo agora, percebo. Mas eu estava tão indignado que não consegui conter-me. Admitiu o homem. A congregação que estava tensa começou a se acalmar. Algumas pessoas choravam. Malafaia virou-se para o público.
Igreja, o que acabaram de presenciar não foi bom, não foi edificante, foi feio, foi constrangedor, mas talvez tenha sido necessário. O homem também se virou para o público. Eu peço perdão a todos vós por ter interrompeu o culto, por ter causado esse constrangimento. Poderia ter escolhido outra forma de expressar as minhas preocupações.
Malafaia olhou para o homem. E eu peço perdão por ter sido agressivo na minha resposta, por te ter chamado servo do diabo, por te ter ameaçado expulsar. E peço perdão por te ter acusado de servir a mamã, por ter dito que usas a palavra como brinquedo. Foram palavras muito duras, disse o homem. Malafaia estendeu a mão.

Como te chamas, irmão? Prefiro não dizer. Não quero que este vire-se sobre mim. Quero que seja sobre a mensagem”, respondeu o homem. “Percebo.” “E qual é a mensagem?”, perguntou Malafaia. “Que precisamos de parar de lutar, que precisamos de parar de deixar a política destruir a nossa fé, as nossas famílias, a nossa igreja? Que precisamos lembrar que somos irmãos antes de sermos de direita ou de esquerda”, disse o homem. Malafaia assentiu lentamente.
É uma mensagem importante, mas deixa-me te fazer uma pergunta. Como fazemos isso sem abdicar dos nossos valores, de as nossas convicções? Não sei. Sinceramente, não sei. Mas acho que começa por menos raiva, por menos ódio, com mais vontade de ouvir o outro lado, sugeriu o homem. E se o outro lado não quer ouvir? Perguntou Malafaia.
Então, talvez comecemos sendo exemplo, mostrando que é possível discordar sem odiar. É possível ter convicções fortes sem ser agressivo, respondeu o homem. Malafa virou-se para novamente a congregação. Igreja, eu preciso fazer aqui uma confissão. Talvez tenha exagerado em alguns momentos. Talvez eu tenha sido demasiado radical na algumas posições.
Talvez eu tenha contribuído para a divisão que este irmão está a falar. Houve murmúrios na congregação. Algumas pessoas pareciam chocadas ao ouvir Malafaia admitir isso. O homem também falou: “E eu preciso confessar que vim aqui cheio de julgamento, cheio de raiva, pronto para atacar. E isso não é cristão. Isto não é aquilo que Jesus ensinou.
Malafaia colocou a mão no ombro do homem. Irmão, vamos orar? Sim, pastor. Vamos rezar. Concordou o homem. Malafaia levantou as mãos. Igreja, vamos todos levantar-nos. Vamos fazer uma oração pelo Brasil, pela nossa nação, pelas nossas famílias, pelos nossas igrejas. A congregação inteira se levantou. Havia um silêncio reverente.
Malafaia começou a rezar. Senhor, nós viemos diante da tua presença, reconhecendo que erramos, que nos deixamos levar pela raiva, pelo ódio, pela divisão, que colocamos a política acima da fé, que esquecemo-nos que somos todos irmãos em Cristo, independentemente das nossas posições políticas. O homem continuou a oração.
Senhor, perdoa-nos por termos transformado as nossas igrejas em campos de batalha políticos. Perdoa-nos por termos usou a tua palavra para justificar a nossa raiva. Perdoa-nos por nos termos esquecido do o teu principal mandamento, amar uns aos outros. Malafaia prosseguiu. Senhor, nós rezamos pelo Brasil, por esta nação dividida, ferida, cheia de ódio.
Que o Senhor traga a cura, que o Senhor traga reconciliação, que o Senhor nos ensine a discordar sem nos destruirmos. E já o homem acrescentou: “Senhor, que possamos ser sal e luz neste mundo. Que possamos ser exemplo de amor, não de ódio. Que possamos ser construtores de pontes, não de muros.
” Malafaia concluiu: “Em nome de Jesus, amém.” A congregação respondeu em uníssono: Amen. Houve um momento de silêncio profundo. Muitas pessoas choravam. O homem abraçou Malafaia. Não era um abraço de melhores amigos, mas era um abraço de respeito mútuo, de reconhecimento de humanidade partilhada. “Obrigado por me ter deixado falar, pastor”, disse o homem.
“Obrigado por ter tido a coragem de falar, mesmo que da forma errada, no local errado, talvez fosse a mensagem certa no momento certo”, respondeu Malafaia. O homem desceu do púlpito e voltou para junto do seu lugar. A congregação acompanhou-o com os olhos, uns com aprovação, outros ainda com desconfiança. Malafaia ficou no púlpito visivelmente abalado.
Igreja, não vou continuar a pregação de hoje. Penso que o que aconteceu aqui já foi pregação suficiente sobre como a raiva pode cegar-nos, sobre como a política pode dividir, mas também sobre como é possível encontrar a reconciliação mesmo depois do conflito. A congregação permaneceu em silêncio. Malafaia continuou.
Eu não vou mudar as minhas posições políticas. Não vou deixar de defender o que acredito ser certo, mas vou tentar fazê-lo com menos raiva, com menos agressividade, com mais amor. Algumas pessoas aplaudiram, outras ainda pareciam processar o que havia acontecido. Vamos terminar este culto cantando Eu Preciso de Ti.
Todos de pé, por favor, disse Malafaia. A banda começou a tocar, a congregação começou a cantar, muitos com lágrimas nos olhos. O homem não identificado cantava também do seu lugar na décima fila. Quando o culto terminou, não houve a habitual correria para a saída. As pessoas ficaram a conversar, abraçando umas à outras, chorando juntas. M.
