Se você achava que a maior preocupação para a economia brasileira em 2026 seriam as oscilações tradicionais do dólar ou a inflação dos supermercados, é hora de redirecionar a sua atenção para a fronteira oeste do país. Algo monumental e potencialmente catastrófico está acontecendo nas águas do Rio Paraná, especificamente na Usina Hidrelétrica de Itaipu. Durante cinco décadas, essa gigante de concreto e aço foi o símbolo da cooperação sul-americana e, mais importante, a garantia de que o Brasil teria energia barata e abundante para crescer. Mas esse tempo acabou. O Brasil está, metaforicamente e na prática comercial, “perdendo” Itaipu para os Estados Unidos. E não, não estamos falando de soldados americanos ocupando a usina, mas de algo muito mais sutil e letal para o nosso bolso: a lei da oferta e da procura em um mundo sedento por eletricidade.
Para entender a gravidade da situação, precisamos olhar para o passado. Em 1973, o Tratado de Itaipu estabeleceu que Brasil e Paraguai dividiriam a energia produzida meio a meio. Como o Paraguai é um país com uma demanda energética muito menor, eles nunca usaram a sua metade inteira. O “pulo do gato” para o Brasil sempre foi a cláusula que obrigava o vizinho a vender o seu excedente exclusivamente para nós, e o melhor: a preço de custo, sem margem de lucro comercial. Foi esse acordo que permitiu ao Brasil manter as luzes acesas e as indústrias rodando a um custo competitivo por 50 anos. Contudo, em 2023, o cenário mudou. Com a renegociação do anexo C do tratado e as novas diretrizes estabelecidas entre 2024 e 2026, o Paraguai conquistou sua “alforria” energética: o direito de vender sua energia no mercado livre.
É aqui que entram os Estados Unidos, não como uma nação invasora, mas como o cliente VIP que chega pagando em dólar e à vista. O mundo vive uma revolução tecnológica sem precedentes, impulsionada pela Inteligência Artificial e pelo processamento de dados massivo. As chamadas “Big Techs” — empresas como Microsoft, Google e Amazon — estão em uma corrida frenética para construir data centers cada vez mais potentes. O problema? Esses centros de dados consomem uma quantidade absurda de energia. E não serve qualquer energia. A energia solar e a eólica, embora limpas, são intermitentes (o sol não brilha à noite, o vento não sopra sempre). Para rodar servidores que não podem desligar nunca, essas empresas precisam de “energia de base”, constante e confiável. Exatamente o que uma hidrelétrica como Itaipu oferece.
O Paraguai, astutamente, percebeu essa mina de ouro. Em vez de continuar vendendo o excedente para o Brasil a preços módicos, o governo paraguaio transformou o país em um paraíso para investimentos tecnológicos. Eles estão atraindo essas corporações transnacionais para instalarem suas infraestruturas em solo paraguaio, alimentadas diretamente pela energia que antes fluía para as casas e fábricas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O resultado é uma drenagem de recursos. A energia está lá, as turbinas continuam girando, mas os elétrons agora têm outro destino: a mineração de criptomoedas e o processamento de IA para o Vale do Silício.
O impacto para o Brasil é imediato e severo. Itaipu responde por cerca de 20% de toda a energia consumida no território nacional, sendo vital para o Sul e Sudeste. Sem a garantia desse excedente barato, o Operador Nacional do Sistema (ONS) se vê em uma encruzilhada. Para compensar a energia que o Paraguai deixou de enviar, o Brasil é forçado a acionar suas usinas termelétricas. O problema é que essas usinas funcionam queimando combustíveis fósseis, o que não só é péssimo para o meio ambiente, mas é terrivelmente caro. É aí que entra o “efeito cascata” na economia doméstica.
Quando o custo de geração sobe, a conta chega para você na forma das temidas “bandeiras tarifárias”. A conta de luz fica mais cara, o que já é ruim o suficiente. Mas o buraco é mais embaixo. A indústria brasileira, que depende de eletricidade para produzir tudo, desde alimentos até carros, vê seus custos de produção dispararem. Para não ter prejuízo, as fábricas repassam esse custo para os produtos. Resultado: inflação generalizada. O pão fica mais caro, o serviço fica mais caro, o custo de vida no Brasil aumenta, tudo porque perdemos a exclusividade sobre a energia de Itaipu.
Além do desastre econômico, há uma perda geopolítica humilhante. Historicamente, o Brasil usava a dependência econômica do Paraguai em relação a Itaipu como uma ferramenta de “soft power”. Tínhamos uma influência política enorme em Assunção porque éramos o único cliente do seu principal produto de exportação. Agora, com o capital americano inundando o Paraguai, essa dinâmica de poder se inverteu. O Paraguai ganha autonomia e proteção política de Washington. Tentar pressionar o vizinho agora significa comprar briga com os interesses das maiores corporações dos Estados Unidos, algo que o Itamaraty sabe ser um campo minado diplomático.
Especialistas em defesa e segurança nacional já soam o alarme para o risco de “apagões estratégicos”. A segurança energética do Brasil ficou vulnerável. Se houver uma crise hídrica severa — e sabemos que o clima está cada vez mais instável — e o Paraguai tiver contratos firmados com empresas americanas, o Brasil terá pouquíssima margem de manobra para negociar energia de emergência. Estaremos competindo com contratos em dólar de empresas que valem trilhões. A soberania sobre o Rio Paraná, na prática, foi diluída.
Diante desse cenário sombrio, a inércia não é uma opção. O Brasil precisa, urgentemente, de uma nova estratégia. Não adianta adotar uma postura hostil contra o Paraguai; eles estão exercendo seu direito soberano de vender para quem paga mais. A resposta brasileira precisa ser interna e estrutural. Precisamos acelerar drasticamente a diversificação da nossa matriz energética, investindo pesado em fontes alternativas e, principalmente, em eficiência energética para fazer mais com menos. Além disso, é necessária uma nova diplomacia energética: o Brasil precisa oferecer vantagens competitivas para que essas empresas de tecnologia queiram se instalar aqui, e não apenas no vizinho, integrando o mercado regional em vez de fragmentá-lo.
Estamos vivendo um momento histórico. Em 2026, a “Batalha de Itaipu” não é travada com canhões, mas com contratos e cabos de fibra ótica. O Brasil perdeu a exclusividade, e com ela, a era do conforto energético. Reconhecer essa derrota é o primeiro passo para evitar que o país mergulhe no escuro. Se o governo e a sociedade não acordarem para essa nova realidade imposta pela Nova Ordem Mundial da Energia, as consequências serão sentidas a cada vez que um brasileiro tentar acender um interruptor e descobrir que a luz, literalmente, custa os olhos da cara.
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