O caso Banco Master é um assalto de colarinho branco ao “seguro do sistema”, com uma engrenagem que privatiza ganhos e socializa perdas via Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e por isso a banca está furiosa com qualquer ameaça de freio, investigação profunda ou mudança de regra.
A Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quarta (14), não mira só Daniel Vorcaro, ela mira o motor da história: fundos usados para inflar patrimônio, fabricar aparência de solvência e empurrar risco para fora do banco, com bloqueio de bens acima de R$ 5,7 bilhões e diligências em cinco estados.
O “espetacular” que a velha mídia mastiga, mas não engole
O país está diante da maior conta potencial já associada a uma liquidação bancária recente.
O próprio mercado trabalha com pagamento total de cerca de R$ 41 bilhões, cifra que aparece em reportagens e estimativas ligadas ao FGC, e que virou o número maldito porque escancara quem vai bancar a farra.
E há um ponto que não é detalhe jurídico, é um recado institucional.
Dias Toffoli (STF) mandou que tudo o que foi apreendido na nova fase fique lacrado e acautelado no Supremo, fora do padrão em que a custódia fica com a PF, sob o argumento de preservar a prova para perícia posterior.
Se o material vai para o cofre do STF, é porque alguém teme vazamento, destruição, contaminação, ou disputa de narrativa antes da perícia.
Quem paga a conta, no fim da fila
Não é “o banco”, nem “o banqueiro”, nem “o investidor sofisticado” que levou o CDB turbinado.
A conta começa no Fundo Garantidor de Créditos, que existe para evitar corrida bancária e devolver dinheiro de pequeno aplicador dentro das regras, e já abriu página específica para o pagamento do caso Master após os atos de liquidação de novembro de 2025.
Mas o FGC não é mágico.
Ele é abastecido pelo próprio sistema bancário e, quando o desembolso é gigantesco, o custo volta para o público em forma de spread maior, crédito mais caro e competição distorcida, porque quem “jogou certo” passa a subsidiar, indiretamente, quem fez captação agressiva com promessa de rentabilidade.
É aqui que mora a fúria dos banqueiros.
Eles não estão defendendo “estabilidade”, estão defendendo um modelo que permitiu empilhar risco sob o guarda-chuva de um mecanismo coletivo.
A engrenagem, em português claro
O que a investigação tenta provar é um circuito de maquiagem.
O Banco Central e a PF apuram uso de fundos para inflar artificialmente ativos, com dinheiro saindo do banco em empréstimos e reaparecendo em estruturas de investimento, numa cadeia que dá “valor” a papéis e empresas que, sem esse empurrão, teriam liquidez baixa ou avaliação contestável.
O exemplo mais didático, e mais assustador, é o do Fundo Brain Cash.
Em apenas 20 dias, ele teria multiplicado o patrimônio em cerca de 30 mil vezes após receber R$ 450 milhões vinculados a empréstimo do Master, e a transação teria sido a única registrada no balanço, segundo reportagem de mercado.
Outro símbolo do absurdo é a história do “armarinho” que teria virado empresa de dezenas de bilhões após reavaliações aceleradas, alimentando valorização bilionária em fundos associados ao enredo.
O que isso revela.
Não é “criatividade financeira”, é a hipótese de um elevador de valuation, feito para sustentar a narrativa de patrimônio e, com isso, captar mais, vender mais, convencer mais.
Por que Toffoli “recuou” e por que isso interessa ao leitor
A Folha relata que Toffoli negou parcialmente diligência anterior e reconsiderou após PF e PGR falarem em “evidência de novos ilícitos” e necessidade de ampliar escopo.
Só que, na prática, o recuo veio acompanhado de duas decisões que gritam.
Cobrança formal à PF por prazo descumprido.
E lacre das provas no STF.
Esse pacote transforma o caso Master em crise institucional, não apenas caso financeiro.
A guerra paralela, TCU e o pânico do mercado
Quando o TCU encosta em liquidação bancária, o sistema treme.
A Reuters registrou reação do mercado e a disputa sobre inspeção de documentos do Banco Central na liquidação, com temor de interferência e incerteza sobre compensação a investidores.
A Agência Brasil informou que o BC desistiu de recurso e que a inspeção do TCU poderia seguir diretamente na análise técnica.
Tradução política.
Os oligarcas da Faria Lima querem autonomia do BC quando é para cortar gasto social, mas querem blindagem total quando a lupa aparece sobre “inovações” que podem estourar no colo do fundo garantidor.
Bancos querem socializar o prejuízo
O caso Master virou o retrato do Brasil em que o andar de cima vende “inovação”, usa o guarda-chuva coletivo para captar e, quando a bomba aparece, tenta enquadrar investigação como “ameaça ao sistema”. O sistema que eles defendem é o que garante o lucro e socializa o prejuízo.