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Escolas completam um ano com menos telas e mais interação
Escolas completam um ano com menos telas e mais interação
Por Administrador
Publicado em 14/01/2026 08:24
EDUCAÇÃO
Um ano depois da lei, instituições de ensino e especialistas apontam avanços na convivência e os desafios de preencher o “vazio digital” deixado pelas telas

Nesta quarta-feira, 14, completa-se o primeiro ano de vigência da lei que proíbe o uso de telefones celulares e dispositivos eletrônicos portáteis em escolas públicas e privadas de todo o país, Lei 15.100/2025.

Entre pátios que redescobrem brincadeiras e salas de aula que enfrentam novos desafios pedagógicos, educadores e especialistas observam transformações que vão muito além da simples ausência dos aparelhos nos corredores. Um ponto é consenso: a norma foi apenas o ponto de partida para uma mudança mais profunda na forma como crianças e adolescentes ocupam o espaço escolar.

Para Cheila Milczarek, diretora do Colégio Marista Ipanema, em Porto Alegre, um dos principais avanços trazidos pela legislação não foi a proibição em si, mas o amparo institucional que ela proporcionou. “A lei nos trouxe uma legitimação maior”, afirma. Segundo a diretora, a escola já promovia debates com seus 1.640 alunos sobre o uso responsável da tecnologia. “Antes, o trabalho era muito focado no convencimento e na regra interna. Agora, temos um amparo legal que chancela as nossas intervenções junto às famílias e aos alunos”, explica.

A pedagoga Barbara Buck, organizadora do livro Brincadeira é coisa séria, da Editora Cortez, compartilha dessa leitura sobre o papel legitimador da norma. “A legislação legitimou o papel da escola”, avalia. No entanto, alerta que esse primeiro passo escancarou um problema ainda maior: o vazio deixado pela ausência das telas nas escolas. “Quando nos tornamos adictos desses aparelhos, todos os espaços de convivência perdem”, pontua.

A avaliação é reforçada por Cecília Farias, dirigente do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul, Sinpro/RS. Segundo ela, a preocupação com o uso excessivo de celulares no ambiente escolar antecede a lei em pelo menos três anos e já vinha sendo debatida no âmbito sindical, inclusive com tentativas de regulamentação via convenção coletiva. A legislação, afirma, consolidou uma demanda histórica dos professores e reduziu tensões cotidianas no trabalho docente, especialmente em sala de aula e nos recreios.

Escolas completam um ano com menos telas e mais interação

Foto: Igor Sperotto/Extra Classe

O “desmame digital” e seus sintomas

Cheila e Barbara relatam sinais claros de dependência tecnológica entre os estudantes. No Marista Ipanema, casos pontuais de alunos com sintomas de “desmame digital” exigiram acompanhamento da orientação educacional para lidar com ansiedade e dificuldades na gestão do tempo, muitas vezes verbalizadas pelos próprios jovens.

Barbara descreve situações ainda mais intensas em visitas a escolas de diferentes regiões do país. “Encontramos um cenário de desespero. Sem o celular e sem alternativas de lazer, alguns alunos apresentaram tédio profundo e até aumento de agressividade, uma reação esperada de quem enfrenta uma dependência”, relata.

Escolas completam um ano com menos telas e mais interação

Cecília Farias, dirigente do Sinpro/RS

Foto: Sinpro-RS/Divulgação

Para a pedagoga, o fenômeno tem raízes no período da pandemia de covid-19, que acelerou o processo de digitalização da vida cotidiana. “A sensação é que permanecemos nesse lugar digital. A realidade se tornou menos atraente para crianças e adultos”, analisa.

Do ponto de vista dos professores, Cecília observa que a retirada dos aparelhos escancarou fragilidades já existentes, mas também abriu espaço para reconstruir vínculos pedagógicos. “Antes, o aluno passava o tempo recuperando mensagens e respondendo notificações que poderiam ser deixadas para depois”, relata. Com a lei, segundo ela, houve melhora perceptível na atenção, no rendimento escolar e na interação em sala de aula.

Pátios redescobrindo a interação

A mudança mais visível ocorreu nos espaços de convivência das escolas. Em Porto Alegre, o Colégio Marista Ipanema precisou repensar sua estrutura para acolher o retorno às interações presenciais. Estudantes dos anos finais retomaram brincadeiras corporais, enquanto jovens do Ensino Médio passaram a ocupar bibliotecas, laboratórios e áreas comuns para conversar e socializar.

Barbara observou transformações semelhantes em pesquisas desenvolvidas a partir da ONG Gaiato, com apoio da Fundação Abrinq, que estimularam o uso de materiais simples, como jogos de tabuleiro, cordas, bolas e tintas, para ressignificar os intervalos escolares.

“Os adolescentes adoram brincar, se divertem e dão risada. Com recursos e liberdade, a mediação de conflitos melhora muito e os atritos diminuem, porque eles estão ocupados em se divertir”, afirma.

A experiência vivida em Ubatuba, em São Paulo, e documentada em seu livro ajudou a derrubar o que Barbara chama de “mito de que adolescentes não brincam”. Para ela, o resgate do repertório lúdico é essencial para que a escola volte a ser um espaço de desenvolvimento integral.

Essa leitura encontra eco nas escolas privadas do Rio Grande do Sul. Cecília Farias relata que, antes da proibição, os recreios eram marcados por isolamento e uso intenso de telas, o que ela define como uma “individualidade terrível”. Um ano depois, jogos como pingue-pongue, pebolim e futebol de botão voltaram a ocupar os pátios, acompanhados de conversas e interações presenciais, fundamentais para o desenvolvimento emocional e social dos estudantes.

O desafio permanece, com menos violência e mais convivência

Escolas completam um ano com menos telas e mais interação

Cheila Milczarek, diretora do Colégio Marista Ipanema

Foto: Divulgação/Colégio Marista Ipanema

Se para educadores o debate gira em torno de reinventar práticas pedagógicas, entre os estudantes o desafio aparece de forma mais concreta e cotidiana. Na rede pública, a experiência com a lei também é percebida como positiva, ainda que atravessada por limitações estruturais das escolas e pela defesa de um uso pedagógico mediado da tecnologia.

Aluna do 3º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Professora Lygia de Azevedo Souza e Sá, em São Paulo, Bárbara Sophia dos Reis Ferreira, 16, relata que a retirada do celular teve impacto direto nas relações interpessoais. “Eu era muito tímida, eu tive que aprender a me comunicar com o pessoal. Acho que isso ajudou um pouco”, relata. Ainda assim, ela observa que o desafio permanece.

A percepção é compartilhada pela irmã mais nova, Ana Beatriz dos Reis Ferreira,14, aluna do 9º ano do Ensino Fundamental da mesma escola. Para ela, a lei “está ajudando muito nos estudos”, mas poderia ser flexibilizada em alguns momentos.

Segundo Ana, antes da proibição, os celulares atrapalhavam porque não havia controle. Ela sugere o uso pedagógico mediado em situações específicas, sobretudo onde não há computadores suficientes.

Mesmo no estado mais rico do país, persistem entraves materiais. “O ensino melhorou, mas como hoje em dia tudo é no computador e não tem para todo mundo, acho que poderiam ter deixado o celular apenas para uso pedagógico”, pondera Bárbara Sophia, retomando um ponto sensível levantado por professores e gestores.

A diretora Cheila Milczarek reconhece que a retirada dos aparelhos é apenas o primeiro passo. “A sala de aula precisa ser reinventada. O professor hoje disputa atenção com uma geração que tem pensamento fluido e tempo de foco curto, herança da conectividade extrema”, avalia.

Escolas completam um ano com menos telas e mais interação

Ana Beatriz e Bárbara Sophia dos Reis Ferreira: a ausência de celulares ajudou a vencer a timidez com os colegas

Foto: Acervo pessoal

Um debate levantado pelos próprios alunos do Ensino Médio do Marista adiciona complexidade à questão: como desenvolver competências digitais previstas na Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, sem recorrer ao uso indiscriminado da tecnologia? A escola busca equilibrar a restrição ao uso recreativo com momentos pedagógicos controlados.

Um benefício colateral da lei foi a redução de conflitos digitais. Barbara destaca que a diminuição do uso de grupos de mensagens durante o período letivo ajudou a conter casos de cyberbullying e atritos antes invisíveis à coordenação pedagógica.

Cheila confirma essa percepção e acrescenta que o retorno às interações presenciais exigiu a retomada do trabalho com habilidades socioemocionais, como resolução de conflitos face a face e comunicação não violenta.

Cecília acrescenta que a legislação também ajudou a reorganizar a relação entre escola e família. Em situações de urgência, os canais institucionais seguem disponíveis, desmontando a ideia de que o celular é o único meio de comunicação durante o período escolar.

O obstáculo fora dos portões das escolas

Para Cheila e Barbara, o principal desafio agora está além dos muros da escola. “A escola regula o uso por quatro horas e meia, mas em casa a liberdade costuma ser total. Precisamos ajudar as famílias a construírem ambientes saudáveis fora daqui”, afirma a diretora.

A pedagoga complementa: “É uma oportunidade para aproveitarmos esse vazio que o celular deixa e tornarmos o aprendizado mais divertido e coletivo”. Ao completar um ano, a lei que parecia simples revelou-se o início de um processo mais complexo: reconstruir espaços de convivência, resgatar o direito ao brincar e reinventar práticas pedagógicas. O consenso é claro: apenas proibir nunca foi suficiente.

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