A cena é quase didática de tão reveladora. O ano só começa e já aparece alguém dizendo que Deus está com pressa de boleto. Trinta mil pessoas convocadas, valor definido, data marcada, urgência criada. E, claro, o velho mantra que nunca falha: “não é pra mim, é pra Deus”. Deus, esse curioso ser que, segundo certos líderes religiosos, administra o universo inteiro, mas curiosamente precisa de Pix humano para funcionar.
Não se trata aqui de fé. Fé é experiência íntima, ética, silenciosa, que atravessa a vida das pessoas em momentos de dor, de alegria, de dúvida e de esperança. O que está em jogo nessa convocação não é espiritualidade, é logística financeira. É transformar a crença em planilha, a devoção em produto, a fragilidade emocional das pessoas em receita recorrente. Isso não é religião, é modelo de negócio travestido de sagrado.
O mecanismo é sempre o mesmo: cria-se uma atmosfera de medo, urgência ou promessa. Algo precisa ser resolvido “agora”, “nesse domingo”, “nesse valor específico”. O fiel não doa por escolha serena, doa sob pressão simbólica. Quem não contribui, sente que falhou com Deus. Quem questiona, é visto como alguém de pouca fé. Assim, a consciência é sequestrada junto com o dinheiro suado doado com as próprias mãos à um canalha imoral e cínico.
Até quando instituições de defeza dos cidadãos ficarão em silêncio diante de golpes explícitos sobre a ignorância e ingenuidades?
