Essa não é uma pergunta retórica.
É uma acusação histórica.
O trabalhismo brasileiro construiu direitos, ergueu instituições, industrializou o país, organizou o Estado nacional e introduziu o povo na política. Mas falhou — de modo persistente — em organizar sua própria inteligência. Falhou em transformar projeto político em escola permanente de pensamento. Falhou em disputar, no plano das ideias, a hegemonia que soube disputar nas ruas, nos sindicatos e no Estado.
E isso é ainda mais grave quando se compreende o que o trabalhismo realmente foi.
O trabalhismo nunca foi apenas uma corrente política. Foi — desde sua origem — uma escola de consciência nacional.
Surgiu como resposta histórica à dominação das elites agrárias e, mais tarde, à submissão do país ao capital financeiro internacional.
Desde Vargas, o projeto trabalhista rompeu com a lógica colonial que condenava o Brasil à condição de exportador primário, socialmente desigual e politicamente tutelado. Enxergou no Estado um instrumento de emancipação, no trabalho o eixo da cidadania e no povo o verdadeiro sujeito da história.
Essa compreensão não era intuitiva. Foi pensada, formulada e defendida por intelectuais que, mesmo sem constituírem uma escola organizada e permanente, produziram uma das mais densas interpretações do Brasil.
Alberto Pasqualini foi o primeiro a formular o trabalhismo como doutrina política, e não como pragmatismo eleitoral. Para ele, o trabalhismo era uma síntese entre justiça social, democracia política e soberania nacional — uma alternativa tanto ao liberalismo oligárquico quanto ao socialismo dogmático. Seu pensamento deu base ética e programática ao trabalhismo varguista e brizolista, ainda que tenha sido posteriormente subestimado.
Guerreiro Ramos elevou esse esforço ao plano da sociologia crítica da dependência cultural. Denunciou o colonialismo mental das elites brasileiras, a importação acrítica de teorias estrangeiras e a submissão epistemológica do país. Sua noção de “redução sociológica” era, no fundo, um chamado profundamente trabalhista: pensar o Brasil a partir do Brasil, de suas contradições reais, e não de modelos alheios.
Josué de Castro forneceu ao trabalhismo uma de suas armas mais poderosas: a denúncia científica da fome como fenômeno político, e não natural. Ao demonstrar que a miséria era produzida pela estrutura econômica e fundiária, desmontou a narrativa moralista da pobreza e fortaleceu a ideia de que desenvolvimento e justiça social são indissociáveis. Seu pensamento antecipou o que hoje se denomina soberania alimentar — eixo central de qualquer projeto nacional consequente.
Nos anos 1950 e 1960, essa tradição ganhou densidade internacional com autores como Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos, que integraram a formulação da teoria da dependência. Demonstraram, com rigor histórico e econômico, que o subdesenvolvimento não era uma etapa atrasada do capitalismo, mas uma condição estrutural produzida pela inserção subordinada da América Latina no sistema mundial. Essa leitura dialogava diretamente com o núcleo do trabalhismo: sem ruptura com a dependência externa, não haveria desenvolvimento soberano; sem Estado forte, não haveria nação; sem controle do capital financeiro, não haveria democracia real.
Nesse mesmo horizonte crítico insere-se Moniz Bandeira, que deu à teoria da dependência uma dimensão histórica, diplomática e geopolítica decisiva. Sua obra demonstrou que a condição dependente do Brasil e da América Latina não se explica apenas por mecanismos econômicos abstratos, mas por uma ação sistemática das grandes potências — em especial dos Estados Unidos — na contenção de projetos nacionais autônomos. Ao reconstruir, com rigor documental, os processos de intervenção externa, desestabilização política e controle estratégico dos recursos naturais, Bandeira mostrou que o subdesenvolvimento é também resultado de decisões políticas internacionais impostas pela força, pela diplomacia e pelo capital financeiro. Com isso, reafirmou um princípio central do trabalhismo histórico: sem soberania na política externa, sem controle nacional dos setores estratégicos e sem compreensão clara da luta geopolítica mundial, não há desenvolvimento, não há democracia substantiva e não há projeto nacional possível.
Darcy Ribeiro levou esse projeto ao plano civilizatório. Pensou o Brasil como uma construção histórica singular, marcada pela violência colonial, mas também por enorme potência criativa. Sua defesa da educação pública integral, da universidade comprometida com o desenvolvimento nacional e da valorização do povo brasileiro como sujeito histórico foi uma das expressões mais altas do trabalhismo enquanto projeto cultural. A Universidade de Brasília e os CIEPs foram tentativas concretas de institucionalizar essa visão — ambas brutalmente interrompidas.
Lélia González ampliou essa crítica ao revelar aquilo que o trabalhismo clássico muitas vezes não enxergou plenamente: o papel estrutural do racismo e do patriarcado na formação do capitalismo brasileiro. Ao articular classe, raça e cultura, mostrou que não há projeto nacional verdadeiro que ignore a centralidade da população negra e das mulheres. Sua obra dialoga diretamente com a dimensão popular e emancipatória que o trabalhismo afirmava defender — e que precisa, ainda hoje, ser radicalizada.
Cibilis Viana e Lícia Peres representam uma geração que buscou manter viva essa tradição no campo da educação, da cultura e da organização popular, mesmo sob o esvaziamento político do trabalhismo institucional. Atuaram na formação crítica, na preservação da memória e na resistência intelectual em tempos de refluxo, quando pensar o Brasil passou a ser tratado como anacronismo.
Neiva Moreira foi talvez o elo mais direto entre pensamento e ação política. Jornalista, intelectual e militante, compreendeu que a luta pela soberania também se trava no plano da comunicação. Sua atuação na imprensa, no Parlamento e na articulação latino-americana expressou a dimensão internacionalista do trabalhismo — a noção de que o destino do Brasil está indissociavelmente ligado ao destino da América Latina.
E, ainda assim, apesar de todos esses nomes, o trabalhismo não consolidou uma intelectualidade orgânica permanente.
Enquanto isso, outros campos políticos organizaram seus aparelhos de produção simbólica. A criação da USP, em 1934, foi uma resposta política consciente das elites derrotadas em 1930. Formou quadros, definiu cânones, estabeleceu parâmetros de legitimidade intelectual — quase sempre em oposição direta ou indireta ao nacional-desenvolvimentismo.
O trabalhismo, ao contrário, acreditou que a realidade falaria por si.
Não falou.
Quem falou foram outros. Outros interpretaram Vargas. Outros definiram o que foi o “populismo”. Outros reescreveram o sentido do desenvolvimento. Outros decidiram o que era moderno e o que era atrasado.
O resultado é um paradoxo histórico brutal: o campo político que mais transformou materialmente o Brasil jamais estruturou um campo intelectual à altura de sua obra.
Hoje, a pergunta retorna com urgência histórica:
Onde está a intelectualidade trabalhista?
Onde estão os centros de estudo?
As revistas?
Os núcleos permanentes de formulação?
Os espaços de síntese entre economia, cultura, educação e soberania?
Sem isso, o trabalhismo corre o risco de sobreviver apenas como memória. E memória, sem elaboração, vira museu. Nostalgia, sem projeto, vira impotência.
A história é clara e implacável: não existe projeto nacional duradouro sem uma inteligência organizada que o pense, o defenda e o renove.
Se o trabalhismo quiser voltar a ser força de futuro — e não apenas lembrança do passado — terá de reconstruir aquilo que mais negligenciou: sua vocação de escola permanente de consciência nacional.
Centros de estudos, núcleos de formulação, revistas e espaços de elaboração estratégica não são ornamentos acadêmicos. São instrumentos de luta.
Sem eles, haverá nostalgia.
Com eles, pode haver projeto.
Porque apenas uma intelectualidade enraizada no povo, comprometida com o trabalho e voltada ao futuro é capaz de formular as batalhas que ainda virão.
E delas — apenas delas — nascerão as novas lideranças capazes de transformar novamente o Brasil.
